Preparação para a Santa Ceia

 

Sermão pelo Revmo. Bispo George de Charms

“Então ele vos mostrará um grande cenáculo mobilado; aí fazei preparativos”


Lucas 22:12.

O assunto tratado aqui é a preparação do homem para se conjuntar com o Senhor por meio da Santa Ceia. Essa conjunção só se realiza após o que parece ser uma total separação. Os discípulos não conheceram realmente o Senhor antes que Ele tivesse Se afastado deles pela morte. Só depois que Jesus ressurgiu da tumba que os discípulos começaram a compreender Sua verdadeira divindade e o adoraram como seu Deus. Mas para que essa crença dos discípulos conseguisse superar a paixão da cruz, para que eles ainda O buscassem e O encontrassem quando ressurgiu, fez-se necessária uma preparação, e este foi o motivo pelo qual celebraram a Santa Ceia juntamente com o Senhor. Pois, se os discípulos não aprendessem a conhecê-Lo e a adorá-Lo, todo o propósito do advento seria frustrado. Por isso é que o Senhor lhes disse: “Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça; porque vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no reino de Deus”. (Lucas 22:15).
Todas as pessoas nascem naturais. Antes de serem regeneradas, não são capazes de entender coisa alguma espiritualmente. A idéia sobre Deus que recebemos dos pais e da religião é puramente natural. Neste respeito, somos como os discípulos do Senhor: enquanto estavam com Jesus no mundo, pensavam sobre ele apenas como Ele lhes aparecia, em carne, com todas as limitações do homem mortal. Jesus era, para eles, o Messias, um Profeta, um Mensageiro de Deus, inspirado por poderes misteriosos e dotado de sabedoria. Mas não podiam, de modo algum, enxergá-lo como o Criador Infinito do universo. E o céu de que Jesus falava, era visto por eles apenas como um reino terreno no qual seriam gratificados com riqueza e honra mundanas.
A mesma coisa acontece com todos nós. Por nossa natureza, pensamos na felicidade em termos de prosperidade externa e realização de objetivos pessoais. Imaginamos essas coisas como as bênçãos que o Senhor promete a todos os que O amam e guardam os Seus mandamentos. A esperança dessa recompensa inspira-nos o culto e nos sustenta em todos os usos da sociedade. Esta esperança é o “pão da vida”, se bem que um pão inevitavelmente levedado pelo fermento do interesse próprio.
“O dia dos pães asmos” deve chegar para todo aquele que está sendo regenerado, quando “importa sacrificar a páscoa”. Isto significa um estado de culto, quando a pessoa é levada a buscar um entendimento mais completo e uma fé mais verdadeira. Cada um deve se retirar, por um momento, dos cuidados do mundo e do pensamento sobre si próprio, e pedir, com toda humildade, a orientação Divina a partir da Palavra. Nesse estado, pode-se sentir a alegria de servir ao Senhor e ao próximo sem se esperar recompensa. Isto é o “pão ázimo”, o único que pode sustentar e nutrir a vida espiritual da pessoa. Só pode ser dado quando se sacrifica o cordeiro da pascoal, isto é, quando a vontade própria se subordina à vontade do Senhor revelada no ensinamento da Palavra. A pessoa pode então ser elevada temporariamente à esfera da vida espiritual por meio de afeições celestes que foram miraculosamente imbuídas em sua vida, desde a infância. Assim, pode digna e sinceramente se aproximar da Santa Ceia.
É, então, que o Senhor pode dizer a “Pedro” e a “João”. “Ide, preparai-nos a páscoa, para que a comamos”. “Pedro” e “João” significam a fé e o amor naturais do homem. Pedro e João ainda não tinham idéia de que o Senhor seria crucificado. Gostaram do convite do Senhor para cear porque O amavam. Mas não sabiam por que, então, o Senhor tinha desejado muito comer a páscoa com eles. Não tinham idéia onde iriam prepará-la, e por isso perguntaram: “Onde queres que a preparemos?”.
Secretamente, o Senhor já tinha providenciado o lugar para a celebração da páscoa, mas mandou que Pedro e João fossem preparar o lugar. A pessoa deve como por si mesma buscar a conjunção com o Senhor, ainda que, na verdade, é o Senhor, através de meios secretos à compreensão humana, Quem conjunta o homem a Si. Mas Ele só pode fazê-lo se o homem voluntariamente seguir sua instrução: “Eis que, quando entrardes na cidade, encontrareis um homem levando um cântaro d'água; segui-o até à casa em que ele entrar”.
A cidade onde deviam entrar era Jerusalém, que significa a doutrina da igreja, o conjunto de ensinamentos que aceitamos como nossa fé tradicional. “Entrar na cidade” é refletir sobre as nossas crenças e compará-la com os ensinamentos claros da Palavra do Senhor. Se elas estão em harmonia com a Revelação Divina, a pessoa aprende a compreendê-las por si mesma, na luz de sua própria mente. Contudo, se crenças não concordam com a Palavra, devem ser rejeitadas. Desta forma é que a pessoa alcança, pela primeira vez, uma fé pessoal; não uma fé persuasiva baseada nos outros, mas a que vem de sua visão pessoal e de uma convicção racional. Por esta fé se é levado a um entendimento mais profundo. E esta nova orientação é representada pelo homem que carregava um cântaro de água, a quem os discípulos encontrariam na cidade.
A fé pessoal está longe de ser perfeita, embora atenda as necessidades de então. É limitada pelas experiências da pessoa, pelos enganos, etc. Mas, sendo a maneira como a pessoa compreende, de seu modo, a Palavra, é muito preciosa à vista do Senhor, pois que nela há inocência, humildade e vontade de se deixar r ensinar e conduzir.
Cada um deve seguir a instrução de sua fé, pois é a única que se tem. Deve defendê-la nas provações e tentações. Não porque é sua convicção própria, mas porque sua fé vem do Senhor; porque vê que sua fé é o que a Palavra ensina e faz a Palavra mais viva e mais operante em sua vida.
Se a pessoa pretende crescer em inteligência e sabedoria espirituais, deve estar sempre disposta a modificar sua crença presente, à proporção que alcança um conhecimento mais exato e um entendimento mais são. E para isso, deve continuar inquirindo as Escrituras e submetendo-se a novos ensinamentos Divinos. Deve considerar sua fé atual não como um fim em si, mas um meio da providência do Senhor por onde pode avançar na vida da regeneração. Deve chegar ao ponto de sentir que seu entendimento atual vai se tornar inadequado para as demandas de sua vida, quando, então, deve de novo buscar do Senhor novos caminhos para prosseguir. Por isso é que, no texto, o homem que levava o cântaro d'água, ao chegar à casa, não é mais mencionado.
Se a pessoa vive fiel ao seu entendimento da Palavra, quando ela lê a Palavra e reflete sobre o significado do que lê, o Senhor secretamente prepara sua mente para uma percepção mais profunda da verdade. Num instante, surgem diante de seus olhos coisas que nunca tinha notado antes, revelando erros de que ela nunca antes suspeitara e abrindo acessos para descobertas pelas quais ela será levada “a um grande cenáculo mobilado”.
Este grande cenáculo não nos pertence. Somos apenas convidados do Senhor. É um lugar santo, arranjado nos íntimos de nossa mente onde podemos receber as graças Divinas de importância inestimável em nossa vida. Ali podemos entrar, aproximar-nos da mesa do Senhor, “cear com Ele e Ele conosco”. Ali, como nunca antes, o Senhor pode nos tocar o coração com Seu amor e inundar nossas mentes com a luz dos céus. Ali Ele abençoa e parte o pão da vida e nos dá o amor que é o Seu próprio “corpo”. Dá-nos a beber o “cálice da salvação”, conferindo-nos um entendimento sensível à Divina verdade que é “Seu sangue”. Tudo isto para nos fortalecer para o dia em que Ele parecerá ter sido tirado de nós, quando virmos que nossa fé natural é inadequado para enfrentar as reais indagações da vida.
Isto acontece muitas vezes na vida de regeneração. Os estados de adoração elevam nossas mentes apenas temporariamente à esfera e à luz do céu. Constantemente caímos para trás, no pensamento da vida do mundo, retornando à corrida por nossas ambições pessoais, à pressão das necessidades do homem externo e à aparência de que na realização dessas demandas está o segredo de toda felicidade. No entanto, é somente neste estado natural que o progresso espiritual pode ocorrer. Em meios às lutas para cumprir nossas responsabilidades, podemos bem lembrar a visão que nos vem nos estados de adoração. Podemos conservar essa visão e protegê-la. Para isso, enquanto cumprimos os deveres de nossa vida diária, devemos também nos esforçar em prol da justiça e da misericórdia, pelo espírito da caridade que considera não o eu, mas o uso no qual não há nenhum objetivo de recompensa.
E esta batalha se alterna com os estados de adoração. A visão de nossos objetivos espirituais tem de se constantemente renovada, para não ficar esmaecida.
Por isso é que o Senhor não somente tomou a ceia com Seus discípulos no cenáculo de Jerusalém, mas também estabeleceu este sacramento da Santa Ceia como um solenidade festiva a ser observada periodicamente, mesmo depois de Ele ter-lhes aparecido de novo, em Sua glória. Sem isto não se poderia estabelecer uma igreja vivia em Seu nome. Esta é a razão pela qual Ele, ao dar aos discípulos o pão e o vinho, disse-lhes: “Fazei isto em memória de Mim”.
Devemos sempre ter o Senhor em nossa lembrança. Nos tempos da tarde, quando chega a noite e compreendemos que precisamos de auxílio, devemos uma vez mais buscar a comunhão com o Senhor. Quando o fazemos, o Senhor de novo “se reclina, e os doze apóstolos com ele” para participar desta “boda” espiritual em que Ele renova nosso amor, fortalece nossa fé e prepara-nos para enfrentar as tentações de nossa vida e, através delas, conquistar os males de nossa herança, a fim de que o Senhor possa edificar sua igreja dentro de nós. Ele só pode fazer isto naqueles que se aproximam dignamente e tomam da Santa Ceia.

Amém.


Lições: Isaías 65: 8-10; Lucas 22:7-16.
AR 219