O Reino de Deus

Sermão pelo Revmo. Bispo Willard D.Pendleton

"O reino de Deus está dentro de vós"


(Lucas 17:21)

Nos tempos antigos, os profetas haviam falado do reino de Deus, do dia em que o Messias iria estabelecer Seu governo sobre todas as nações da terra. Nas palavras que proferia, o Messias era visto como um rei dos reis, cercado de magnificência real como de um Salomão, ou então como um David a liderar os exércitos de Israel vitória após vitória.
Foi esta visão de Israel triunfante que sustentou esse povo singular através dos séculos de humilhação racial e de servidão estrangeira. Nos eventos em que outras nações eram dispersas, Israel sobrevivia, continuando a preservar sua identidade. Era, pois, na esperança de dias mais felizes no futuro, que esse povo suportou na face circunstâncias penosas; e mesmo no tempo em que não se ouvia mais voz de profeta na terra, Israel não esquecia a Palavra da profecia.
Agora chegava o décimo quinto ano de Tibério César, quando um homem, vestido em roupas de pelo de camelo, punha-se à beira do Jordão, clamando e dizendo: "Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus" (Mateus 3:2). Para a compreensão terra dos judeus, isto só poderia indicar uma coisa: que havia chegado o reino de Deus na terra. É evidente que enquanto alguns duvidavam, muitos se enchiam de esperança, pois conjecturavam em seus corações se havia ou não chegado o Cristo. Mas João lhes disse: "Eu não sou o Cristo"... "Aquele que vem após mim, que foi antes de mim" (Jo.1:20,27). Desde aquele dia, as multidões que eram batiza­das por João seguiam o Senhor e esperavam sinais que indicassem ser Ele o Messias.
Todavia, logo ficou claro que aquele Homem não viera como eles esperavam. Israel espe­rava um governante de sangue real, mas esse Homem veio de entre os pequenos e era amigo de publicanos e pecadores. Mas, em sua expectativa, Israel se esquecera de observar as implicações mais obscuras da profecia. Esqueceram-se do que disse Isaías, que o Messias cresceria "como uma raiz de uma terra seca", e que nEle não havia nenhuma formosura, e seria desprezado quan­do o vissem (53:2).
Assim foi que, quando os escribas e fariseus vieram ao Senhor, perguntaram quando viria o reino de deus; mas ele, percebendo a astúcia deles, respondeu, dizendo: "O reino de Deus não vem com aparência exterior, nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo ali!, porque eis que o reino de Deus está dentro de vós" (Lucas 17:20,21). Ali estava uma nova doutrina, uma afirmação incrível para a mente dos judeus. Isto significava que o reino de Deus seria algo inteiramente diferente do que eles haviam concebido como o propósito mesmo do advento.
Neste particular, o segundo advento não difere do primeiro. Mais uma vez o Senhor vem ao mundo, desta vem como o Espírito da verdade; sobre isto Ele havia falado aos discípulos na noite da crucificação. Mas como essa vinda do Senhor, em Espírito, não concorre com a idéia preconcebida pelos homens, eles dizem: "O que é isto?... devemos crer que esses Escritos são [a vinda do Senhor]? que evidências temos para crer no testemunho de Swedenborg? Quem, além de Swedenborg, já testificou essas coisas?" Mas, assim como o Senhor disse aos judeus: "Eu, po­rém, não recebo testemunho de homem" (Jo.5:34), os Escritos afirmam: "É a Divina Verdade que dá testemunho sobre o Divino e não o homem..." (AE 638:4). A prova, portanto, são os es­critos mesmos; e a questão é que eles unicamente afirmam ser o sentido espiritual da Palavra e a revelação do Senhor em Seu Divino Humano. Qualquer que seja a conclusão que a pessoa possa ter, deverá sempre admitir que os Escritos são diferentes de tudo o que jamais foi anunciado.
Para todos os leitores sérios dos Escritos, porém, o texto Divino fala por si mesmo, pois aqui encontramos não só um conceito novo sobre Deus, mas também um conceito novo do que é o bem, a verdade, a liberdade humana, a Palavra, o homem, e o sentido e propósito da vida. Esse propósito é definido nos Escritos como um céu para a raça humana. E, no entanto, as pessoas di­zem: "Que há de novo nisso? Isso não é ensinado nas Escrituras?" A novidade não é o ensina­mento de que há um céu, mas sim que o reino dos céus é um reino de usos, e que é no prazer dos usos que consiste o reino dos céus.
Diz-se freqüentemente que o céu para cada um consiste naquilo que se ama. O amor é a vida do homem, e é fazendo o que ele gosta que ele tem prazer. Pois nós somos ensinados nos Escritos que, se a pessoa quiser conhecer a qualidade de sua vida, basta prestar atenção nas coi­sas em que ele sente prazer (AC 3796), pois "onde estiver vosso tesouro, aí estará também o vosso coração" (12:34). Por isso, no auto-exame, a questão real é se as coisas em que temos pra­zer são subordinadas ao usos que elas devem servir.
Aqui devemos, porém, distinguir entre o egoísmo e o amor de si, pois enquanto o egoísmo de qualquer espécie é essencialmente mau, o amor de si é bom, tanto em origem quanto em pro­pósito. Porque todo amor tem origem em Deus, e o propósito do amor de si é que, por meio dele, o homem seja útil aos outros. Esta é a razão por que os Escritos ensinam que o amor de si não é mau quando subordinado ao uso; e também que todo homem é o próximo em relação a si mesmo, e por isso deve prover os bens para si mesmo. Taõpouco é proibido que alguém desfrute os prazeres em que se deleita, como os prazeres das riquezas e possas, os prazeres da honra e do ofício, de vestir-se e morar elegantemente, os prazeres de comer e beber, e os do tato (AC 995). Essa é apenas uma lista parcial das inúmeras coisas que deus proveu para o bel-prazer do ho­mem; mas quando o prazer nessas coisas se torna um fim em si mesmo, isto é, quando elas são preferidas em detrimento dos prazeres que se encontra no serviço dos usos, a ordem da vida se inverte, porque Deus criou o homem como uma forma de uso, uma forma capaz de responder com prazeres às necessidades dos outros. Na perversão dos usos, ou inversão da vida, está a ori­gem de todo mal. Assim, os Escritos insistem que a origem de todo mal está no próprio homem, porque, ao perverter o usos para o qual foi criado, o homem transforma  "o bem em mal" (AmCon 444).
Os Escritos estão nos dizendo aqui o amor a si é o meio pelo qual o homem exerce o bem do uso, mas quando o prazer do amor de si não é subordinado adequadamente ao uso, surge o mal. Este é um conceito novo a respeito do mal. Em outras palavras, o mal Não é apenas uma questão de imperfeição moral, como o Antigo Testamento parece dizer. Nem é apenas uma transgressão social em relação ao próximo de que trata o Novo Testamento. Quando visto pelo que realmente é, o mal consiste em apropriar para si mesmo aquilo que pertence ao bem ou a Deus. Seja, por exemplo, a instituição do casamento: é uso desde o início ordenado por Deus. Todavia, quantos pensam no casamento em termos do uso para o qual ele deve servir? A maioria das pessoas pensa no casamento como uma instituição social destinada a preservar a ordem entre os homens; seu uso real não é visto e por isso não se percebe o mal que está implícito na perver­são desse uso. Ao considerar o casamento como uma instituição feita por homens, as pessoas deixam de perceber nele seu uso essencial, e por isso são incapazes de perceber as profundas implicações dos males que invertem e pervertem os usos espirituais do casamento.
Os anjos do céu diferem dos homens na terra porque eles têm uma percepção mais clara do uso e ao desempenho do uso se dedicam. Todo prazer da vida dos anjos tem origem no uso, e sem o uso eles não experimentam prazer em coisa alguma. Eles não pensam em recompensa nem desejam reconhecimento pelos serviços desempenhados (Ver AC 3816). De fato, não se preocu­pam consigo mesmos a não ser como instrumentos do uso. Os anjos estão livres de si mesmos, de seu próprio ego, e é nisto que consiste a liberdade angélica. Os Escritos observam que toda servidão vem das afeições do amor de si e do mundo, e toda liberdade vem da afeição do uso (AC 6390). Por isso, então, é que foi dito a respeito de Issacar, o filho de Jacob, que ele "é um jumento... deitado entre dois fardos", porque Issacar representa todos os estados da mente em que os pensamentos do comentam concentram-se em si mesmo" (AC 6388). Nesses estados, os usos da vida realmente se tornam fardos, e os espírito do homem é privado de qualquer prazer com as atividades normais da vida.
É essa preocupação consigo mesmo que é a fonte de todos os estados de aborrecimento e de insatisfação geral que afligem aqueles que não são sensíveis ao usos. Agir bem é fazer o bem que é útil aos outros. Mas não existe uma fórmula prescrita de felicidade humana. Não há prazer algum em apenas fazer as coisas. é preciso que haja o propósito no que se faz, e é nesse bem do propósito que consiste o reino do céu. É isto que se entende pelas palavras do Senhor: "O reino de Deus [ou do bem] está dentro de vós".
Nos primeiros estados da regeneração, o reino do Senhor se estabelece no homem através do desejo de ser útil aos outros. Esse desejo, porém, está misturado com muitas afeições que têm origem no ser da pessoa. Se não fosse assim, o homem teria prazer no uso sem esforço algum. Mas se ele deseja sinceramente ser guiado pelo Senhor, será mantido no curso da providência, e nas necessidades que se lhe apresentarem ele enxergará as indicações da providência. Mas quantos hoje realmente crêem que exista uma providência nos negócios humanos, e querem admitir a possibilidade de algum prazer à parte do amor de si? Em quase todos os relacionamen­tos humanos de hoje o princípio vigente é o do interesse próprio. Os Escritos falam de alguns espíritos que "enquanto viviam [no mundo} nada fizeram de... bom aos outros... a não ser por causa de si mesmos; esses não crêem que é possível existir algum prazer... sem a recompensa como fim, porque supõem que, se não houver a intenção da recompensa, cessa todo prazer" (AC 6391).
Envolvidos como somos pelo nosso próprio eu, como podemos atingir o ideal do amor ao uso, ou de agir sem o pensamento em nossa própria pessoa? A verdade é que, por nós mesmos, não podemos. A própria natureza do ser do homem torna isso impossível. Mas o que impossível para o homem é possível para Deus, pois o ensinamento é que se o homem apenas evitar os ma­les como pecados contra Deus e o próximo, e conscientemente se esforçar para fazer os bens que são úteis ao próximo, o Senhor irá, com o tempo, inspirar em seu coração um prazer nesses usos que será isento da intenção de recompensa para si mesmo. Nisto nos lembramos da história de Efron, o hitita, que, quando Abrahão quis pagar-lhe pela venda da cova de Macpelah, ele censu­rou a Abrahão, dizendo: "O que há entre mim e ti?" Aquilo que se faz por uma afeição espiritual faz-se por nenhuma outra razão senão o bem. Assim aprendemos que os anjos do céu são intei­ramente avessos a qualquer sugestão de recompensa por causa de algum bem que tenham feito, pois sabem que o bem que fazem não procede deles mesmos, mas do Senhor através deles (AC 3816). Entretanto, é dito também que "a recompensa é útil... naqueles que não são ainda regene­rados". Isto se aplica, em maior ou menor grau, a todos os homens na terra.
O que é, então, que estamos pedindo quando oramos, dizendo: "Venha a nós o Teu reino?" Não, no desempenho do uso, possamos ser libertos da aparência persuasiva de que nosso ego merece honra, reconhecimento e recompensa? A verdade é que, de si mesmo, o homem não pode fazer nada, isto é, nada de bem. É como lemos em João: "Sem Mim, nada podeis fazer" (15:5). É por isso que os Escritos insistem que toda honra e toda dignidade sejam atribuída ao uso e não ao homem que desempenha o uso. A honra e a dignidade devem ser  prestadas aos homens por causa dos usos que eles prestam, mas "a honra não está na pessoa, mas é adjunta ela... e o que é adjunto não pertence à pessoa mesma" (NJDC 317). Daí vem o ensinamento dos Escritos de que "toda honra pessoal é a honra da sabedoria e do temor do senhor" (Ibid.).
É assim que, orando, também dizemos: "Porque Teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre". É pelo reconhecimento de que tudo pertence ao senhor que o homem é gradativamente conduzido ao prazer do uso, e é nesse prazer, e em nenhum outro fora dele, que o reino do céu consiste".

Amém.


Lições Gênesis 4:1=15. João 3:1-22; AC 6388, 6391.
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