Os Ideais da Fé

Sermão pelo Rev.Cristóvão R.Nobre

 
"E aconteceu que, estando com eles [à mesa], tomando o pão, o abençoou e partiu-o, e lho deu. Abriram-se-lhes então os olhos, e o conheceram, e Ele desapareceu"

(Lucas 24:30,31)

No processo da regeneração, há ocasiões em que nos parece que perdemos os ideais de nossa fé; sentimo-nos como que abandonados por Deus e distantes d'Ele; e somos envolvidos pela crua realidade das lutas diversas que temos de travar no mundo.
No Evangelho de Lucas encontramos a tocante passagem do ocorrido na tarde do domingo da ressurreição do Senhor. Dois discípulos saíam de Jerusalém e se dirigiam para uma pequena aldeia chamada Emaús. Enquanto caminhavam, iam falando entre si com grande tristeza a respeito dos acontecimentos recentes e tão trágicos da prisão, crucificação e morte de Jesus. Sua tristeza era por causa da desilusão que sentiam pela perda dos ideais com que sonharam. Pois eles tinham testemunhado as grandes obras de Jesus, que fez até mortos voltarem à vida. Tinham o Senhor como um "varão profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo". Tinham esperado ansiosamente que Aquele poderoso profeta fosse restaurar a antiga glória de Israel e remir o povo do domínio estrangeiro. E, no entanto, aquele Homem fora preso, açoitado, crucificado e morto já há três dias, e com Ele morreram as esperanças que haviam nutrido. Ainda abalados, deixavam Jerusalém para trás, talvez procurando se distanciarem do cenário de tanto sofrimento e decepção, mas certamente porque pensavam não ter mais motivos para lá permanecerem.
"E, aconteceu que, indo eles falando entre si, o mesmo Jesus Se aproximou e ia com eles". Mas a tal ponto estavam tomados por suas frustrações e pela tristeza, que não reconheceram Jesus naquele viajante que os acompanhava. "Os olhos deles estavam como que fechados", diz o texto, "para que O não conhecessem".
"E (Jesus) lhes disse: Que palavras são essas que, caminhando, trocais entre vós, e por que estais tristes?" Eles responderam, expondo ao estranho acompanhante o motivo de sua tristeza. Falaram-lhe de sua esperança perdida acerca da remissão de Israel, do sofrimento do Profeta e da maldade dos que O crucificaram, e também a respeito de rumores ouvidos sobre uma possível ressurreição, ainda que ninguém O tivesse realmente visto.
Então o Senhor começou a lhes falar, dizendo: "Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na Sua glória?" E dali até Emaús o Senhor lhes falava e expunha tudo o que d'Ele fora predito nas Escrituras.
E assim chegaram ao seu destino. Jesus fez como quem ia prosseguir adiante, mas os discípulos "O constrangeram, dizendo: Fica conosco, porque já é tarde, e já declinou o dia. E entrou para ficar com eles. E aconteceu que, estando com eles [à mesa], tomando o pão, o abençoou e partiu-o, e lho deu. Abriram-se-lhes então os olhos, e O conheceram, e Ele desapareceu-lhes. E disseram um para o outro: Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava e quando nos abria as Escrituras? E na mesma hora, levantando-se, tornaram a Jerusalém".
Imaginemos o contentamento com que imediatamente retornaram... A alegria que sentiam ao voltarem sobre seus passos, talvez quase correndo, para levar a boa notícia aos que estavam em Jerusalém. Este mesmo caminho que pouco antes haviam percorrido, mas então com os olhos espirituais fechados, a ponto de não terem reconhecido que era o mesmo Jesus quem andava ao seu lado e lhes ensinava.
Nos Escritos vemos que os "olhos" correspondem ao entendimento, e os "olhos fechados" são um entendimento obscurecido. Só foram abertos quando o Senhor partiu o pão, para então O reconhecerem. Porque o "pão", na Palavra, significa o bem, e o "partir do pão" significa compartilhar esse bem; corresponde pois ao amor mútuo, a caridade para com o próximo; é um amor espiritual que procede do Senhor, Quem parte o pão. (Este é o mesmo significado que tem, na Santa Ceia, o ato de se partir, quebrando, o pão.) Os que recebem do Senhor este pão Divino são os que vivem na caridade, cuja principal coisa é não fazer o mal ao próximo e ao Senhor, e a segunda é fazer-lhes o bem.
Nos "Arcanos Celestes" 5405 lemos: "Na Igreja Antiga se quebrava o pão quando era dado a outrem, e por isso era significada a comunicação do bem de alguém e a apropriação desse bem, e assim a existência do amor mútuo. (...) O partir do pão era significativo do amor mútuo".
É quando exerce esse amor mútuo, a caridade para com o próximo, que a mente humana recebe a iluminação necessária para que compreenda a Verdade. Um entendimento são a respeito de todas as coisas só pode existir quando houver, ao mesmo tempo, o bem espiritual da caridade para com o próximo. Quando se compartilha essa caridade é que se pode ver, compreender e adorar o Senhor, como lemos também nos "Arcanos": "O Senhor aparece por meio do bem, mas não pela verdade sem o bem, porque o "pão" é o bem do amor. Por essas e outras passagens é evidente que "ver", no sentido interno, significa a fé no Senhor, pois não existe outra fé que seja fé a não ser esta que vem do Senhor. Esta torna o homem capaz de "ver", isto é, de crer. Mas a fé proveniente de si mesmo, ou do próprio do homem, não é fé, pois o faz ver falsidades como verdades, e verdades como falsidades" (3863).
A pessoa que busca levar a vida realmente cristã possui ideais espirituais. Esses ideais são os objetivos para que apontam a sua fé, e se resumem nos usos que a pessoa deve desempenhar em favor do Senhor e do próximo, pois é na realização eficaz dos usos que está a verdadeira felicidade. Esses ideais da fé são os mesmos objetivos da Igreja -pois a pessoa é uma Igreja na menor forma- e se resumem na salvação do gênero humano. Mas,para que este objetivo geral seja alcançado, cada indivíduo possui ideais ou objetivos particulares, mais imediatos, que visa alcançar, tais como: o afastamento dos males decorrentes da supremacia dos amores de si e do mundo com a conseqüente subjugação desses amores e sua reposição na ordem; dentro disto está a correção da vontade quanto às inclinações más herdadas dos pais; o domínio das cobiças adquiridas e alimentadas pelo próprio indivíduo; a educação do caráter pelo cultivo da sinceridade, firmeza, prudência,perseverança, temperança, confiança inabalável em Deus e esperança de Sua salvação, além de outras diversas virtudes que fazem parte da fé cristã. Porquanto todas essas coisas são meios pelos quais tornamo-nos aptos a desempenhar bem os usos que a Providência Divina nos destinou a todos e a cada um de nós.
Enquanto tivermos em mente esses ideais e lutarmos por eles; enquanto estivermos compenetrados da importância de passarmos por este processo de reconstrução de nossa vontade e entendimento por causa dos usos que devemos desempenhar para o Senhor, estaremos numa esfera de fé, de visão espiritual, de confiança na Providência Divina, e estas coisas constituirão a Igreja dentro de nós. Teremos a Igreja em nosso íntimo e, por conseguinte, a teremos ao nosso redor. Estaremos na Jerusalém espiritual.
Contudo, para se alcançar esses ideais há trocas que parecerão difíceis de se fazer. Precisaremos abrir mão dos interesses próprios que forem conflitantes com os interesses eternos; abrir mão do comodismo, da satisfação com a própria condição, em troca da mudança interior e do progresso do espírito. Custar-nos-á deixar muitos de nossos ideais, de viver em prol de nossos gostos, da contemplação de nós mesmos, para levantarmos os olhos e enxergamos à nossa volta onde aplicaremos nossa utilidade. É o preço da renúncia à sua própria pessoa, à própria vida, como o Senhor nos alertou: "Quem quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a cada dia a sua cruz e siga-Me".
Essa renúncia e essas mudanças não acontecem só no plano do entendimento, mas são mudanças da própria vontade; são contra os nossos amores. E por isso só podem acontecer com luta, muita luta, como o Senhor mesmo nos avisou: "Não cuideis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas a espada"
Sendo assim, era para estarmos preparados, sabendo o que iríamos enfrentar, no dia em que decidimos fazer o voto de seguir ao Senhor. Era tempo de sabermos que há lutas que precisam ser encaradas sem esmorecimento, sem se fraquejar na fé e na confiança na ação Divina. Nunca deveríamos esquecer que, enquanto estivermos neste plano material, as lutas se sucederão, pois elas visam exatamente propiciar a nossa regeneração, dar ao bem a dominação sobre o mal.
Entretanto, somos fracos na fé; somos falhos. E, na maioria das vezes que nos vemos diante das lutas, sejam de ordem espiritual, sejam de ordem material, tornamo-nos presas fáceis da dúvida, da desconfiança na Providência Divina, da decepção e até do desespero. Logo nos esquecemos dos altos ideais espirituais e queremos fugir das problemas, retroceder ao nosso conformismo. No entardecer de nossa fé, saímos da esfera interna de Jerusalém e nos afugentamos na distante Emaús. E, pelo caminho da tristeza, vamos lamentando nossa sorte, nosso desamparo diante dos sofrimentos e aflições. Perdemos a visão da vida celeste, da Verdade Divina, da bem-aventurança de uma vida de usos, sentindo que é inútil permanecermos firmes, confiantes e lutar.
As aflições fazem parte da vida neste mundo. As lutas espirituais são as que visam fins eternos; são os combates da tentação, que têm em vista a regeneração; são, por exemplo, a luta contra um mau hábito porque se está convencido de que é um pecado contra Deus, a persistência pelo estudo das verdades da Palavra, porque elas provêm de Deus e são meios da regeneração; ou a resistência à insinuação infernal de uma cobiça. As outras lutas, porém, que visam fins temporais como o bem estar do corpo e a garantia do sustento, são naturais, e não podem ser consideradas tentações; são, por exemplo, o sofrimento com as doenças, os insucessos nos negócios e no trabalho e outros infortúnios desse gênero. Mas tanto umas quanto outras podem, às vezes, nos perturbar tanto, que chegam a nos escurecer a visão dos valores que realmente importam, que são os valores da vida espiritual.
Tomado pelo desânimo, nosso espírito se abate e se entristece em sua invalidez. Onde está o Senhor nessa hora? O espírito O sente distante, como também distantes aqueles altos ideais da fé; ficaram longe; Jerusalém ficou, há muito para trás, porque estamos andando na direção de nossa própria dúvida.
Mas o Senhor nunca está longe. Pelo contrário, estará ainda mais perto, ao nosso lado, andando conosco, ainda que O não reconheçamos. A ação de Seu Espírito Santo em nossa mente e nosso coração nos leva o pensamento para verdades que podem nos libertar, mas o nosso entendimento está fechado e ainda não as vê com clareza. Nessa hora o Senhor nos fala: "Ó néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram. Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na Sua glória?"
Pois, se de fato tínhamos resolvido tomar a cruz e ir após o Senhor, deveríamos estar preparados para essas lutas, para que, quando viessem, não fôssemos tomados pelo medo, pela insegurança, pela dúvida e pela falta de confiança na Providência Divina. Os "profetas", os ensinamentos da Palavra em Seu sentido espiritual já nos ensinaram que a Providência Divina age em cada uma das menores coisas de nossas vidas; que o Senhor tem um propósito e um uso em cada coisa que nos acontece; que até os males, tanto os do espírito quanto os do corpo, se ocorrem é porque o Senhor poderá deles tirar um bem determinado para a nossa sorte eterna. Por que seremos, então, tardos em acreditar nas Doutrinas da Palavra? Pois "não convinha que o Cristo padecesse... para entrar na Sua glória?" E não nos convém, por nossa vez, padecer as lutas que o Senhor não pôde nos evitar, para que Ele opere nossa regeneração e salvação? Qual é o motivo, então, para lamentarmos quando chegar a hora da aflição? Qual o motivo de nossa falta de fé nas adversidades que a vida nos reservou, sejam elas espirituais ou naturais?
É certo que não podemos passar pelas aflições sem sofrimento, sem dor. Mas podemos fazê-lo tomados pelo desespero e pela dúvida ou, por outro lado, resignados e consolados pela esperança de socorro do alto.
O que faremos, então, diante de nossas adversidades? O texto de Lucas diz: "E chegaram à aldeia para onde iam... E eles o constrangeram, dizendo: Fica conosco, Senhor". E no Apocalipse o Senhor diz: "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a Minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele comigo". O Senhor vai conosco, está conosco, ao nosso lado, mas espera o convite para entrar em nosso coração, por uma questão de respeito à liberdade que Ele mesmo deu ao homem e por causa da livre apropriação do bem.
Assim, nessas horas, podemos nos voltar para o Senhor. Podemos dirigir nossas súplicas a Ele e, ao mesmo tempo, elevar nossas vistas para cima e para fora de nós mesmos. Procuremos pensar no uso. Procuremos ver que benefícios o Senhor pode nos fazer tirar de nossas lutas, que lições, que estímulo, para que elas sejam não empecilhos, mas meios de conquistarmos um avanço espiritual. De qualquer maneira, ainda que nos seja difícil enxergar um uso em nossas dores, procuremos ao menos dirigir nossa atenção para o próximo, para as dores dos outros, e de que maneira com as nossas poderemos consolá-los. Pois sempre encontraremos alguém em condições ainda mais tristes que a nossa, a quem poderíamos ajudar.
No momento em que estamos atravessando as adversidades espirituais, não podemos ver a ação da Divina Providência agindo, porque, se o pudéssemos, certamente iríamos interferir na ação de Deus e prejudicar o bom andamento de Sua Providência, como lemos nos Escritos (DP 278). Mas, depois de passar a tormenta, olhando para trás poderemos ver, nas menores coisas, a Divina Providência; veremos depois os motivos, não antes nem durante.
Pensar no uso faz a gente pensar não em si mesmo, mas no bem espiritual dos outros e, assim, no Senhor. Quando dirigimos os olhos para a vida eterna, para o papel que podemos ter no Reino do Senhor, nossos problemas pessoais diminuem de importância. Nossa própria pessoa desaparece, e o Senhor aparece. É então que vemos o Senhor: quando nos dispomos a receber dele o amor mútuo, a caridade para com o próximo. Porque então o nosso entendimento se abre para compreender que a Divina Providência do Senhor estará sempre, do alto, governando, dirigindo e conduzindo todas e cada uma das coisas para o maior bem possível na eternidade; que ela sempre quer o bem de todos os homens, sejam bons, sejam maus. A Providência tem em vista especialmente nosso bem eterno, ainda que para isso tenha de nos deixar sofrer neste mundo por uns breves instantes relativamente ao que é a eternidade.
Olhando os ideáis de nossa fé, os nossos usos espirituais (que são muitos, mais do que poderíamos imaginar), recuperamos a visão de nosso Deus. Vemos, de relance, o Bem que pode nos esperar nos céus. Temos um vislumbre do amor em que estão os habitantes dos céus, aqueles que para lá já foram porque aqui souberam manter-se fiéis e não perderam os seus eternos ideais. A despeito das lutas que também tiveram de enfrentar, permaneceram na Jerusalém espiritual, na confiança do Senhor e na esperança de Sua salvação. Amém.
Lições: Lucas 24:13-35
Divina Providência 187