"A Humilhação do Senhor nas Tentações"

Sermão pelo candidato Cristóvão R. Nobre

 

"Porque minha alma está cheia de angústias, e a minha vida se aproxima da sepultura. Já estou contado com os que descem à cova; estou como homem sem forças. Posto entre os mortos; como os feridos de morte que jazem na sepultura, dos quais te não lembras mais, antes os exclui a tua mão. Puseste-me no mais profundo do abismo, em trevas e nas profundezas".
Salmo 88: 3 a 6

Este salmo traduz a extrema agonia proveniente da humilhação na qual o Senhor entrou quanto ao frágil humano que tomara de Maria, pois estas palavras tratam, no sentido supremo, das tentações do Senhor. Tais tentações foram causadas pelo mal hereditário que o homem externo do Senhor recebera de Maria, sendo por isso indispensável que o Senhor passasse por essas tentações e assim pela humilhação a fim de que fosse possível a plena expulsão daqueles males herdados, e para que então o Senhor glorificasse o Seu Humano, fazendo-o Divino. Hoje o Senhor está imediatamente presente conosco, porque Ele venceu todas as tentações e o Seu Humano foi glorificado. Por isso também Ele é atualmente Deus Homem, isto é, Divino até aos últimos do Natural, e assim pode também nos tornar de homens naturais em homens celestiais, e nos fazer vivos.
A qualidade da humilhação suportada pelo Senhor nas tentações só pode ser percebida muito dificilmente por nós, e mesmo assim em uma forma bem acomodada á nossa percepção, visto que o nosso entendimento está infinitamente abaixo do que se refere as coisas Divinas (l). Assim é que as palavras deste Salmo podem nos mostrar, por meio de representativos, qual foi a dura condição do Senhor quando estava no humano ainda não glorificado, tendo de se esvaziar completamente de tudo quanto era meramente humano para em seu lugar poder receber o Divino. Um tal esvaziamento foi predito na profecia cada em Isaías: "...porquanto esvaziou a sua alma até a morte, e foi contado com os transgressores" (20; este esvaziamento, chamado exinanição, se refere tão somente as coisas  que o Senhor recebera da mãe, quais coisas eram externas e corporais, e, sendo assim más, isto é, com tendências para o mal, deviam ser refeitas e expulsas do humano natural, par que o Senhor o tornasse Divino.
Desde a Sua concepção o Senhor teve uma natureza externa e outra interna, como todo homem. Porém com o Senhor, o Seu Interno era o Divino Mesmo, e somente o Seu externo foi de natureza humana, como é com o homem, e por isso o mal em si, o que impossibilitava a sua união com o interno. Como é sabido na Nova Igreja, a união entre o externo e o interno é efetuada através dos combates de tentações. Para que fosse conforme a ordem, essa união no Senhor também se deu mediante as tentações que Ele mesmo admitiu no externo, pois os infernos excitaram os males hereditários que estavam ali. Quando se dão essas excitações ou ataques dos infernos, a  aparência deles no homem externo é em forma de ansiedades interiores e dores de consciência (3). A ansiedades destes combates no externo do Senhor, isto é, no humano ainda não glorificado, pode ser conhecida nas palavras deste Salmo. Por elas podemos ter alguma idéia do estado da mente externa do Senhor, onde havia uma profunda tristeza por causa do mal que a infestava, e também uma extrema humilhação pelo reconhecimento desse mal. Isto se vê especialmente quando Ele orou dizendo: - "Porque a minha alma está cheia de angústias, e a minha vida se aproxima da sepultura". A aparência que o Senhor tinha então, quanto ao externo, e de que ele se encontrava colocando nos próprios infernos.
Tal aparência era, contudo, bastante real, pois sabemos pelas Doutrinas Celestes que os infernos assaltam o amor que o homem tem dos veros e bens, e os infernos se opõem a este amor com o homem (4). Entretanto esses ataques são variáveis em proporção ao amor existente; logo, se não há amor, não há ataques. Nós podemos saber pelos Arcanos Celestes quão terrível foi esse ataque com o Senhor, quando sabemos que "a vida do Senhor foi o amor para com toda a raça humana, e era realmente tão grande (esse amor), e de tal qualidades, que nada era senão puro amor ... E porque este amor não era humano, mas Divino, e porque tal como é a grandeza do amor, tal a tentação, pode (dai) ser visto quão graves foram os combates, e quão grande a falsidade por parte dos infernos" (5).
Nós não poderíamos jamais compreender a gravidade das tentações do Senhor em toda a sua extensão, e muito menos poderíamos  suportar sequer uma milésima parte delas. (6) porque o Senhor combateu contra todos os infernos que então se levantaram para se opor ao Seu amor para com a raça humana. Nesses combates os infernos insinuaram as dúvidas mais cruéis quanto ao Senhor conseguir efetuar a redenção, donde lhe veio a ansiedade e daí o desespero. Também a respeito dessas tentações  pouco podemos saber pelo sentido da letra isoladamente, uma vez que por aí se sabe, em geral, apenas a respeito, das tentações que o Senhor sofreu no deserto, no Gethsemani e na cruz. A razão disso é porque se fossem reveladas na letra as ansiedades e dúvidas provenientes das tentações, uma maior incredulidade haveria nas igrejas quanto a Divindade do Humano do Senhor. Mas, pelo Sentido Interno da Palavra, a Nova Igreja é suficientemente ensinada a esse respeito, e assim podemos conhecer inumeráveis arcanos a respeito da glorificação do Humano do Senhor. Vemos, por exemplo, que o Senhor suportou tentações na infância são também reveladas e representadas pelas tentações no deserto. Pelo Sentido Interno podemos saber também que em muitos outros lugares na Palavra se trata de Suas tentações e da angústia que o Senhor sofreu nelas, como por exemplo, na oração de Jonas desde as entranhas do peixe: - "As águas me cercaram até a alma, e o abismo me rodeou" (7), palavras estas que têm  a mesma significação que aquelas do Salmo onde é dito: "Estou com homem sem forças. Puseste-me no mais profundo do abismo, em trevas e nas profundezas", ou seja, que o Senhor teve a aparência de estar sem poder, pois as tentações o submergiram como se fosse nas falsidades e males.  Entretanto, o desespero e a angústia foram parcialmente mostrados no Sentido da Letra, quando se fala de Sua oração na Gethsemani, onde o "seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão (8).
Quando estava no Humano ainda não glorificado o Senhor reconheceu a fragilidade de Sua natureza humana e externa,  e  o quanto era distinta da Essência Divina, que era Seu Interno. Ele, mais do que ninguém, sabia a enormidade da distância que há entre o meramente humano e o Divino, e por isso é que, quando reconhecia essa distinção, Se colocava na mais profunda humilhação diante do Pai, isto é, diante do Divino n'Ele, ao ponto de que então falava com o Pai, isto é, diante do Divino n'Ele, ao ponto de que então falava com o Pai como se falasse com uma outra pessoa, assim como Ele bradou na cruz. Todavia, o estado de exinanição, ou humilhação, com o Senhor não foi contínuo, mas se alternou com os estados de glorificação; e isto na medida  em que o Senhor obtinha sucessivas vitórias sobre os infernos e os subjugava a Sua ordem. Ao mesmo tempo as fraquezas da má hereditariedade humana iam sendo gradativamente expulsas e o Humano ia sendo feito gradativamente Divino. Assim ia se fazendo uma união cada vez mais plena entre o Humano e o Divino.
Mas a fim de que a união fosse possível, o Senhor mesmo se humilhava e se esvaziava de Si mesmo quanto ao meramente humano, com está amplamente mostrado no sentido da letra da Palavra, quando Ele disse em João - "Porque não busco a Minha vontade, mas a vontade do Pai que Me enviou" (9); e também: "Eu não posso de Mim mesmo fazer coisa alguma" (l0); e ainda: "Quando levantardes o Filho do homem, então conhecereis que Eu Sou, e que nada faço por Mim mesmo, mas falo com o Pai Me ensinou" (ll), sobre quais palavras os Escritos dizem que são indícios de que o Senhor se submeteu completamente a vontade do Pai. Este foi o Seu reconhecimento de que, antes de ser glorificado, era morto por Sua natureza, e que só o Que é Divino tem Vida em Si mesmo. (l2).
Nos Escritos nós lemos que 'na humilhação há o reconhecimento de si como nada senão imundície, e ao mesmo tempo, o reconhecimento da infinita misericórdia do Senhor para com o que é tal; e quando a mente é mantida nestes dois reconhecimentos, a própria mente se inclina para baixo em direção  aos infernos, e prostra o corpo; e não se ergue até que seja erguida pelo Senhor" (l3). Os Escritos dizem também que isto só toma  lugar na verdadeira humilhação. Podemos ver assim a qualidade da humilhação do Senhor quando no Salmo Ele reconheceu: "Como os feridos de morte que fazem na sepultura... Puseste-me no mais profundo  do abismo' (l4). Aí o Senhor se sentia como se abandonado e sozinho; esta é a mesma sensação que tem o homem na tentação, julgando que Deus o abandonou. Esta aparência ao Senhor foi tão forte que causou o Seu clamor na cruz: "Deus Meu! Porque me abandonaste?".
Já foi dito que a humilhação do Senhor foi por causa do reconhecimento do mal hereditário do meramente humano, o que impedia a união com o Divino. Mas por outro lado, foi justamente pela humilhação que o Humano se aproximou do Divino, uma vez que quando se humilha, o homem se despe de toda habilidade de pensar ou fazer  alguma coisa por si mesmo. Essa humilhação no Senhor possibilitou a recepção do Divino e assim contínuas vitórias sobre os infernos, como lemos em João que Ele orou: "Pai, glorifica o teu nome. Então veio uma voz do céu que dizia: Já o tenho glorificado, e o glorificarei" (l5). E assim, pela humilhação mais grave foi a morte na cruz, e daí a plena glorificação do Seu Humano.
Enquanto estava nos combates de tentações, o Senhor combatia pelos veros, os quais eram, a princípio, provenientes do Divino, depois do Divino Vero, e na medida em que prosseguia a Sua união, se fez enfim o Divino Bem quanto ao Humano (l6). Sendo atualmente o Divino Bem mesmo quanto ao Seu Humano, o Senhor não está mais no estado de humilhação ou exinanição, porque este estado se refere apenas aos aspectos meramente humanos que Ele se despiu quanto no mundo. Assim, tudo o que o Senhor havia recebido de Maria foi gradativamente rejeitado, até a plena rejeição na cruz, sendo então não mais o filho de Maria, mas o Filho de Deus, "não somente quanto a concepção, mas também quanto ao nascimento, e daí foi um com o Pai e JEHOVAH Mesmo" (l7). Isto é representado na letra quando o Senhor disse a Maria: "Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe" (l8). Assim, é um erro se dizer que o filho de Maria foi glorificado, pois tudo que dela foi plenamente rejeitado com a morte na cruz. Por motivo semelhante, também não é justo fixarmos na mente a idéia do Senhor na Sua tentação, isto é, na paixão da cruz, pois Ele superou completamente aquela última humilhação, e foi glorificado.
Pela Sua vitória, o propósito da Vinda do Senhor pôde ser então plenamente realizado; o Senhor repôs todas as coisas em ordem e subjugou os infernos, livrando assim a raça humana de destruição que estava para vir (20). Quando nós sabemos melhor a respeito da humilhação do Senhor por causa de Sua hereditariedade humana, e quando entendemos a razão dessa humilhação e o que ela pode proporcionar, isto é, a glorificação do Humano do Senhor, então podemos também compreender melhor e mais justamente o Senhor, e, na medida de nossa percepção, a qualidade de Sua Essência Humana e Sua Essência Divina. Sabendo então isto, poderemos também entender melhor porque só Ele pode vencer por nós. Estes ensinamentos nos ajudam, portanto, a formar em nós uma justa concepção e um justo reconhecimento do Senhor, tal como Ele está se revelando plenamente nas Doutrinas do Sentido interno da Palavra. Isto é importante para nós porque o reconhecimento da Divindade do Humano do Senhor é o que estabelece a Nova Igreja.
Uma outra razão para conhecermos os processos da glorificação do Senhor, isto é, a Sua hereditariedade, Suas tentações, Suas vitórias e Sua união do Humano ao Divino, é porque por aí podemos aprender também a respeito de nossa própria reforma e regeneração. Assim, o que aprendemos daí é que devemos reconhecer essencialmente isto, a nossa qualidade e condição diante do Senhor, como Ele o fez dizendo: - "A minha vida se aproxima da sepultura; já estou contado com os que descem a cova". O reconhecimento conosco se dá pelo auto-exame. Sem dúvida, ao fazermos isto, teremos muitas razões para sentimo-nos como em profundo abismo, ou seja, que, quanto ao nosso próprio, estamos como que nos infernos. Um tal reconhecimento de nossa frágil condição humana pode nos fazer ver, pelo menos justiça e a Justiça d'Ele, e enfim, entre a lastimável condição humana e a infinita misericórdia do Senhor. Pois, como somos ensinados pelas  Doutrinas, a natureza humana em si mesma é a morte (21), e só o Senhor é vida, pois Ele é a Vida Mesma. Por isso todo Bem e toda Verdade pertencem só a Ele. De fato, diante do Senhor, o reconhecimento que nós podemos ter de nós mesmos, jamais poderia ser outro senão este: "Posto entre os mortos; como feridos de morte que jazem na sepultura".
Somos ensinados ainda pelos Arcanos Celestes (22), que a necessidade da "humilhação do homem não é por causa do amor do Senhor pela (sua própria) glória, mas por causa do Seu Divino amor, e a fim de que Ele possa aí influir com o bem e o vero, e fazer o homem abençoado e feliz", porque, "tanto quanto o coração é humilhado, tanto o amor de si e todo mal daí cessa; e tanto isto cessa, tanto o bem e o vero, isto é, a caridade e a fé influem do Senhor; porque o que se mantém no caminho da recepção destes é principalmente o amor de si, no qual há desprezo pelos outros em comparação a si mesmo; ódio e vingança se não se é tratado com honra; e também impiedade e crueldade; daí os piores de todos os males. e neles o bem e o vero não podem de modo algum serem introduzidos, porque eles são o postos" (AC 2327) (22).
Contudo, é com muita dificuldade que o homem reconhece o seu próprio estado diante do Senhor, porque a humilhação que vem daí gera tristeza e angústia. Mas não poderia ser de modo diferente, já que assim é dito no Salmo, até mesmo em relação ao Senhor: - "Porque a minha alma está cheia de angústia". É pois inevitável que haja tristeza pela nossa própria condição, e em seguida, anseio pela recepção de um novo próprio. Como o Senhor determinou: "Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas qualquer que perder a sua vida por amor de Mim e do evangelho, esse a salvará" (23).
No entanto, podemos nós ter a esperança de que, assim como o Filho foi mais e mais glorificado, até a plena união ao Pai, assim também nós, tanto quanto exercermos auto compulsão (24), e nos humilharmos, fazendo-nos submissos ao Senhor, então Ele irá efetuar gradualmente a nossa regeneração. Assim, na medida em que os males e os falsos forem banidos, assim a nossa vontade e entendimento receberão mais e mais os veros da fé e os bens do amor provenientes do Senhor, até que sejamos conjuntos a Ele na paz e felicidade celestes. AMÉM.

Lições:     DS 35
Salmo 88