"O Humano Glorificado do Senhor"

Um sermão pelo Rev. Cristóvão Rabelo Nobre

"Vede as Minhas mãos e os Meus pés, que Sou Eu mesmo; apalpai-Me e vede,
 pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho"

Lucas 224:39

     Ao se apresentar aos discípulos no corpo glorificado, de carne e ossos naturais, o Senhor evidenciava o fato que o evangelista João mais tarde resumira: "Deus era a Palavra, e a Palavra se fez carne, e habitou entre nós".
Os discípulos, tomados de um misto de assombro, temor e alegria, viram o Senhor novamente, depois da ressurreição, e na mesma aparência em que O conheceram. Mas houvera uma grande mudança: tendo vencido a morte e os infernos, o Humano do Senhor estava agora glorificado, fazia-se um com a Alma Divina. Agora podiam ver plenamente Deus através do Humano, o Divino Humano.
Esta visão era da maior importância para os discípulos; era uma revelação necessária à fé deles; homens ainda simples de entendimento, precisavam de uma prova irrefutável, testemunho da realidade do Deus que era ao mesmo tempo Homem, Jesus Cristo. Não poderia haver mais lugar para a dúvida; a percepção deles dessa verdade tinha que estar solidamente baseada na revelação aos seus sentidos naturais, pois era por aí que o Senhor haveria de começar uma nova Igreja. Por isso era uma revelação diretamente aos sentidos naturais deles: podiam vê-lo, ouvi-lo e tocá-Lo. Ainda que para vê-Lo os discípulos precisassem ter abertos os olhos espirituais, no entanto, era uma aparência tangível aos seus sentidos. O Senhor mostrou-lhes as mãos e os pés; que o tocassem e o vissem: era Ele mesmo. Porém, ainda arrebatados pela alegria, os discípulos custavam a crer pelo que o Senhor, tomando do peixe assado e um favo de mel, comeu diante deles. E depois lhes abriu o entendimento para que entendessem as Escrituras.
O Senhor revelou-Se em carne e ossos devido a várias razões: uma, por causa das correspondências de carne e ossos; e outra, porque, em Seu corpo Divino, Ele é de fato constituído de carne e ossos.
A afirmação dessa verdade pode soar estranha a ouvidos esclarecidos no mundo cristão. Embora seja literalmente dito na Palavra que o tinha (e tem) corpo de carne e ossos, e mesmo Se sujeitou a ser testado pelos sentidos do homem, os que crêem na Palavra literalmente passam por cima deste ponto e o consideram confuso. No entanto, isto está conforme a percepção dos simples, que não foram corrompidos por raciocínios de lógica humana. Pois é contra essa lógica que o Ser Divino possa ter um corpo humano, e ainda mais se é um corpo que se tornou invisível aos sentidos.
A Igreja Cristã primitiva não teve dificuldade em crer nessa verdade. Para eles, era muito claro que o Senhor, o mesmo Jesus, o que tinha todo o poder no céu e na terra, esse era Deus que Se fizera carne e habitara com os homens. Era Jesus Cristo, em quem "habitava corporalmente a plenitude da Divindade", e "o verdadeiro Deus e a vida eterna', como escreveram Paulo e João. Mas a Igreja Cristã pós-Nicéia se enredou nas falsidades derivadas de seus próprios raciocínios  a respeito da pessoa Divina, e, em seus conceitos, separou Deus em três pessoas distintas, e o Divino separou do Humano. Daí se perdeu a pedra fundamental de seu conhecimento em toda matéria espiritual, pois é sobre uma fé justa sobre Deus que se baseia todo o doutrinal e toda a sabedoria da Igreja.
Por conseguinte, foi necessário que, no tempo de Sua Segunda Vinda, o Senhor restaurasse a idéia justa sobre Si Mesmo, como é, Uma pessoa, um Deus, na Forma Mesma, que é a Forma Humana.
As Doutrinas nos ensinam que antes de nascer neste mundo, "o Senhor era de eternidade JEHOVAH ou o Pai, em forma humana, mas ainda não em carne, pois um anjo não tem carne". E porque JEHOVAH ou Pai quis se revestir de todo o humano, para a salvação da humanidade, por isso Ele tomou a carne também. Por isso é dito: "Deus era a Palavra, e a Palavra se fez carne..." (AC 93l5). No período antigo, do Velho Testamento, não tendo ainda um corpo natural, o Senhor se manifestava aos homens através  da forma de um anjo, a quem Ele enchia com Seu poder e Sua mensagem. Foi nessa forma que Ele se mostrou a Abrahão, a Jacó e a outros. E assim era que Ele se mostrava ao homem antiqüíssimo, de antes da queda.
Se o homem desta terra não tivesse caído em seu próprio egoísmo, não haveria a necessidade de o Senhor assumir um corpo natural. O homem primitivo tinha acesso a Ele como um anjo, sob a forma humana, e daí tinha conjunção com Deus. Mas, depois da queda, o homem perdeu esse acesso ao Divino, caindo nas coisas meramente corporais, do próprio e infernais, distanciando-se de Deus. Por isso, o Senhor precisou descer até ao homem, nascendo aqui e tomando uma forma pela qual o homem pudesse ter novamente acesso ao seu Criador. Mas, alguém poderia pensar: Não teria sido mais fácil Deus então impedir a queda do homem? Se  o fizesse, Deus estaria violentando a livre decisão que Ele mesmo pusera no ser humano. Portanto, Ele preferiu descer ao natural e Se sujeitar às lutas para reerguer o homem caído. Esses combate contra a natureza humana caída só poderiam ser travados em pé de igualdade, isto é, Deus sendo homem. Pois, tivesse Ele Se aproximado do homem como é, em Seu Divino Ser, ou JEHOVAH, a raça humana simplesmente desapareceria, destruída, mais do que se o sol descesse até a terra.
Ao entrar neste mundo natural, o Senhor fez tudo segundo a Ordem: foi concebido por uma semente num útero, formou aí um corpo, veio à luz e cresceu e se desenvolveu. Na ordem geral, foi como qualquer homem, mas diferiu neste particular: Alma, ou a semente que operou em Maria  era o próprio JEHOVAH, o Altíssimo. Este foi o Pai do humano, da carne e dos ossos. As Doutrinas nos ensinam que a alma procede do pai, e o corpo da mãe. Todavia, não é a mãe que forma o corpo, mas a própria alma, ou o receptáculo de vida que é a semente, que ajunta em volta de si as substâncias necessárias, envolvendo-se com elas e tecendo um corpo segundo a sua semelhança. Logo, o corpo Divino não foi formado por Maria, mas pelo próprio Senhor, por Sua Alma Divina. Entretanto, como tomou de Maria as substâncias naturais, por isso mesmo o corpo formado estava impregnado das inclinações existentes na natureza meramente humana, inclinações que eram para o mal. Essa natureza ou hereditariedade de Maria consistia no que se chama o filho de Maria. A herança meramente humana era em si a morte, e era, pois, o que devia ser rejeitado, para que aquele corpo se tornasse plena morada de Deus.
Os infernos agiam nessas tendências más existentes no filho de Maria. Quando atacavam o humano por esse campo, o Senhor lhes fazia resistência, os vencia, e os subjugava, expulsando-os. Juntamente com eles eram expulsas ou despidas as tendências infernais do corpo. Livre daquela fraqueza, o corpo recebia em Seu lugar um caráter novo, procedente da Alma Divina. E isto acontecia até o nível das singularíssimas partes do corpo, que era então renovado, ou nascia de novo quanto àquele determinado ponto, por assim dizer. Era a purificação, a glorificação do corpo, que ia aos poucos se fazendo Divino, propício à habitação da Alma. O caráter novo, vindo do interior, era o filho de Deus, que ia tomando o espaço do filho de Maria.
Dava-se substituição de próprios: o próprio morto, recebido de Maria, era expelido e dava lugar ao próprio Divino, A Vida Mesma, ou o Divino Bem e a Divina Verdade. Pois foi esse novo próprio aos poucos recebido que foi representado pela carne e pelos ossos do Senhor. A carne significa o próprio Divino no que diz respeito ao Divino Bem; e os ossos, o próprio Divino quanto à Divina Verdade. "Carne e Ossos", ou seja, o Bem e a Verdade que se uniam no Humano do Senhor, pela glorificação. A última substituição do próprio humano, de Maria, pelo Divino, de JEHOVAH, deu-se na cruz; o filho de Maria, sendo completa e finalmente expelido, bradou: "Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?".
Pela morte na cruz, o Senhor completou o processo, fazendo com que todas as coisas corporais se fizessem Divinas; não só as corporais, como também os  seus recipientes orgânicos; a sua própria carne e os seus próprios ossos se tornaram Divinos. Não eram mais substâncias materiais, mas substâncias Divinas. Mas, mesmo assim, eram substâncias naturais, tomadas do mundo natural e glorificadas. E por isso é que foi dito que Ele se fez Deus até quando ao nível Natural. Fez-Se Divino Natural, visível, acessível, que podia ser tocado pelo homem. "Vede as Minhas mãos e os Meus pés, que Sou Eu mesmo; apalpai-Me e vede". As mãos e os pés correspondem aos últimos, ao natural; e, no Senhor, correspondem ao Divino Natural. E que era mesmo JEHOVAH quem agora estava no natural, acessível ao homem, vê-se Ele ter proferido: "que Sou Eu Mesmo", pois só JEHOVAH é o "Eu Sou", o Divino Ser.
Uma vez o Senhor disse aos discípulos: "Como o Pai tem a Vida em Si Mesmo, assim deu também ao Filho ter a Vida em Si mesmo" (João 5:26). A Vida Mesma, ou o Divino Bem e Verdade, agora procedia do Humano glorificado do Senhor; agora esse Humano era a Vida em si, Deus visível. E nos Arcanos Celestes lemos: "Depois de (o Senhor) ter expelido o mal hereditário, e assim ter purificado as coisas orgânicas de Sua Essência Humana, essas também receberam a Vida, de sorte que o Senhor, sendo já a vida em relação ao Seu Homem interno, tornou-Se a vida também quando ao Seu Homem externo" (AC l603)
Assim, o corpo do Senhor sendo totalmente refeito em Sua vida até à morte, ao ressuscitar Ele estava num corpo em que nada havia de corruptível, nada de meramente humano. E por isso Ele ressuscitou quanto ao corpo inteiro, sem nada deixar no sepulcro. As mulheres e Pedro que ali foram pela manhã certamente buscavam o filho de Maria, de acordo com sua concepção do Senhor, e por isso não puderam achá-Lo. Havia agora ninguém mais do que o Filho de Deus, o Humano gerado pela Alma Divina, JEHOVAH.
Com o homem acontece, nesse particular, de modo inteiramente diferente. Mesmo sendo regenerado, os males ativos e hereditários que estão no homem não podem ser dele expulsos, mas são apenas removidos para a periferia. Estão ligados ao homem e constituem o seu verdadeiro próprio. Por isso, quando morre, o natural do homem é deixado no pó, e ele ressuscita somente quanto ao seu corpo espiritual. Por isso o Senhor disse: "um espírito não tem carne e ossos, como vedes que Eu tenho". Mesmo sendo regenerado, o próprio infernal do homem não é retirado, mas adormece; e o Senhor lhe empresta um novo próprio, uma nova vontade e um novo entendimento, pelos quais o homem passa a viver. Esse próprio novo, vontade e entendimento, correspondidos pela carne e pelos ossos, não são de fato do homem, mas do Senhor com o homem. Por isso o Senhor disse que o homem-espírito não tem nada de carne e ossos como Ele tem, não tem nada do próprio vivificado; não tem vero e bem que sejam seus.
Ao obter a vitória, glorificado o Humano, o Senhor cumpriu todas as coisas da Palavra, e por isso Se fez a Palavra também no natural.
Lemos em João: "A Palavra se fez carne, e habitou entre nós; e vimos a Sua glória, a glória do Unigênito de Deus, cheio de graça e verdade". João 1:14.
Tornar-se carne é tornar-se a Palavra nos últimos, isto é, até quanto ao seu sentido literal. Mas como poucos entendem como o Senhor Se tornou a Palavra, os Escritos nos ensinam: "seja conhecido que todo homem é o seu próprio amor, e consequentemente o seu próprio bem e sua própria verdade. É somente por isso que um homem é homem, e nada há mais nele que seja homem" (ver DES 98-l00). E como o Senhor é em essência o Divino Amor e a Divina Sabedoria, por isso Ele é também  a Palavra, pois a Palavra nada mais é do que a expressão do Amor e da Sabedoria, do Bem e da verdade de Deus. Por conseqüência ao Se tornar Divino quanto ao Natural, o Senhor ao mesmo tempo se tornava a Palavra em seu sentido Natural, ou Divino Vero e Bem no Natural. Assim, a carne e os ossos com que Se mostrou também representavam esse Vero e Bem  nos últimos, na Palavra em Seu sentido natural. "Carne" e "ossos" são, portanto, todos os Seus ensinamentos de Amor e Verdade no sentido natural das Escrituras.
Depois de mostrar-Se em Seu corpo, o Senhor também comeu peixe e mel. O peixe significa a verdade natural, ou seja, o mesmo que os ossos; enquanto o mel significa o bem e o prazer provindo daí, isto é, o mesmo que a carne. Mas porque era peixe assado, significa a verdade proveniente do bem, ou seja, a verdade unida ao bem, característicos da regeneração, quando o homem não só conhece, mas também cumpre e faz. E porque havia tal conjunção, pôde também haver iluminação. E por isso foi que o Senhor passou a instruir os discípulos, abrindo-lhes o entendimento, para ver coisas admiráveis nas Escrituras, que nunca antes tinham conhecido.
"Vede as Minhas mãos e os Meus pés", é o entendimento de como o Senhor está presente: nos últimos do Natural e na Palavra; "que Sou Eu Mesmo", pois é na Palavra literal que JEHOVAH se apresenta e fala ao coração do homem. "Apalpai-Me e vede". O Senhor convidando a tocá-Lo; e tocar, no sentido interno, significa a comunicação. Pelo toque há transferência de vida. É, portanto, um convite para que o homem entre em comunicação, com Ele, tocando-O na carne e nos ossos, isto é, tendo contato com o Senhor através das verdades e bens que estão na Palavra em Seu sentido literal. É buscando a verdade nas Escrituras Sagradas, compreendendo-as e examinando-as à luz das Doutrinas Celestes de Seu Sentido Interno, e refletindo a respeito dos seus muitos ensinamentos e suas aplicações para os diversos estados de nossas vidas. Se o fizermos com a intenção de por as verdades em prática em nossa vida, se as procurarmos por causa do uso para a nossa regeneração e conseqüente bem do próximo, poderemos também "ver" o Senhor, ou seja, entender os Seus ensinamentos da verdade e bem, com a nossa mente racional.
É depois desse estado que o Senhor nos abre mais e mais a mente, para compreendermos a Verdade na Palavra. É assim que encontraremos a Verdade, pois é o Senhor Só que no-la pode dar, como fez aos seus discípulos, naquela noite de domingo da ressurreição: "Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras". Amém.

 

Lições: Lucas 24, parte
João  l: 1 - 14
NJDC  286 e 287.