A Confissão de Fé

 

"Esforça-te e anima-te... O Senhor... é Aquele que vai diante de ti;
Ele será contigo, não te deixará, nem te desamparará. Não temas, nem te espantes"

Deuteronomio. 31:7,8

Nas Doutrinas Celestes da Nova Igreja nós aprendemos que o batismo tem vários usos importantes, como o de abrir as portas para um crescente reconhecimento do Senhor e para a regeneração, quando a pessoa que se batiza assume a responsabilidade por sua própria vida. O batismo associa a mente ou espírito da pessoa aos cristãos da mesma fé, na Igreja e nos céus. No caso do batismo de crianças, este ato expressa as intenções e os compromissos dos pais ou responsáveis de que irão diligentemente ensinar as crianças a reconhecer e adorar ao Senhor e lutar contra os males como pecados.
Durante a infância e a adolescência, a autoridade paterna é coisa fundamental para o indivíduo. A criança e o jovem não pode prescindir de uma disciplina clara, presente, determinada, mesmo que às vezes pareça exagerada e rigorosa, pois, evidentemente, a pouca idade ainda não lhes permite compreender as situações do mundo à sua volta, nem podem assumir as responsabilidades que uma liberdade maior lhes traria.
Quando membros de uma Igreja Cristã verdadeira assumem, pelo batismo, o compromisso solene de que vão educar, dirigir e proteger a criança que eles assumem, estão, diante de suas consciências, diante dos homens e, sobretudo, perante Deus, assumindo o sério dever de que vão ser, aqui na terra, guardiões espirituais daquela criança até que esteja em idade de se defender dos males. As próprias leis humanas exigem dos pais o dever de zelar pela integridade física, mental e moral da criança. Não é menor a exigência das leis da religião, que requerem de nós o compromisso de prover à criança o bem espiritual de que seu espírito necessita. Na verdade, o primeiro e maior uso que podemos e devemos prestar neste mundo é em relação aos nossos próprios filhos, pois que estão sob nossa responsabilidade direta e imediata. Por isso não podemos jamais prescindir do uso da autoridade que essa responsabilidade requer.
À medida que a criança vai crescendo, a forma de se exercer autoridade também se adapta ao crescimento, mas a autoridade mesma não acaba; continua imprescindível, porque, mesmo na juventude e, de certa forma, até na vida adulta, a pessoa continuará a se relacionar com os pais vendo neles um certo poder moderador, não uma fonte de comando, mas um referencial de experiências vividas que a prudência recomenda ouvir e, até, quando for o caso, obedecer. A obediência dos filhos que se tornaram adultos não será mais a obediência infantil, mas o resultado de um exame equilibrado da razão. Vejamos, por exemplo, o caso de Moisés e seu sogro, Jetro. No deserto, com a responsabilidade de guiar para outro país uma multidão de centenas de milhares de pessoas, Moisés, o líder indicado por Deus e aceito por todo aquele povo, tem, um dia, de parar para ouvir a voz da experiência de Jetro, e atendeu, porque procedia da razão.
Na infância, a pessoa está na fé que se chama histórica, ou seja, crê que as coisas são assim porque alguém lhe ensinou dessa maneira. A fé histórica existe enquanto a mente não está preparada para analisar com devida profundidade as circunstâncias e os estados à sua volta. Pelo que dizem as Doutrinas, esse estado de fé infantil dura até à idade dos vinte anos, aproximadamente, pois é só aos vinte anos que a pessoa começa, realmente, a poder usar, com clareza, a faculdade do entendimento, a ponderar e julgar com justa visão a natureza das coisas. O jovem pensa que aos 15, 16, 18 já sabe julgar, conhecer e analisar com necessário juízo, mas a idade mesma lhes mostrará, mais tarde, que estão superestimando as potencialidades de seu entendimento nesta fase. Enquanto, pois, a idade adulta não chega trazendo a visão do entendimento para se compreender o alcance das responsabilidades, os pais não podem abrir mão de exercer, pela criança, o juízo em todas as matérias da vida civil, moral e espiritual.
A fé histórica, por ser fundada na educação e no ensino, útil e essencial na infância, não é a fé adulta, como se vê, e por tanto não pode acompanhar a criatura humana quando ela tiver de assumir as responsabilidades da vida adulta. Estamos falando aqui de uma condição ideal, pois a verdade é que uma grande parte dos adultos continuam, por toda a vida, numa fé histórica, deixando de exercitar sua própria razão e juízo para agirem com a sensatez necessária. Na Igreja, a fé histórica se revela no membro que não procura, por si mesmo, examinar os doutrinais de sua fé, conhecer os fundamentos da religião e formular para si mesmo doutrinais de vida em conformidade com o que a religião dita.  Assim, permanecem na crença por terem ouvido dizer ou porque assim foram ensinados na infância; ficam apenas na superfície do conhecimento espiritual e nunca penetram profundamente na terra fértil da doutrina. Em razão disso, os atos da vida natural são às vezes carentes de julgamento e maturidade.
Quando chegamos à idade adulta - assim nos ensinam as Doutrinas Celestes - temos o dever essencial de examinar imparcialmente os dogmas da religião em que fomos criados, para saber se são ou não verdadeiros. Mesmo no caso de pessoas que nasceram dentro da Igreja e a freqüentaram desde a infância por anos e anos, existe a necessidade de reexaminar tudo o que lhe foi incutido desde a infância, toda a fé histórica que lhe ensinaram a ter. Só então é que as verdades da fé entram, pela razão, no entendimento do indivíduo e, se ele se esforçar e lutar por elas, podem se tornar também seus, de sua vontade e sua vida.
É em razão disso que os usos do batismo de uma criança ficam como que suspensos até à idade adulta; só se realizam efetivamente quando a pessoa - homem ou mulher - no exercício de sua livre vontade e desfrutando de razão já esclarecida, traz a si os juízos do Senhor e traça seus caminhos com a determinação de evitar os males como pecados contra Ele; não porque seus pais lhe ensinaram, nem para desagradar a eles, mas porque são pecados contra Deus.
O batismo e a Santa Ceia são os dois únicos sacramentos da Igreja e são por isso essenciais. Alguns outros rituais da Igreja não são essenciais, do ponto de vista das Doutrinas, mas são todavia úteis. Entre estes está a confissão de fé ou confirmação. Estas duas palavras, confirmação e confissão, nos dão idéia da importância envolvida neste ato.
Há duas coisas a serem consideradas quando a criança se torna moça ou rapaz: primeiro, o entendimento, depois, a vontade. O jovem tem muitas questões. As dúvidas nessa idade são a respeito de coisas elementares e fundamentais da vida; são como ondas ou rajadas de vento que parecem abalar todas as estruturas da fé histórica em que sua mente está baseada. Mas as dúvidas são sempre de duas espécies: há a dúvida negativa, arrasadora, que procura negar e aniquilar todas as coisas da fé e rejeitar toda autoridade, reconhecendo somente a si mesmo, sua própria inteligência e vontade. Nessa espécie de dúvida não há humildade nem reconhecimento algum do poder e da autoridade Divinos. Mas existe, por outro lado, a dúvida afirmativa, tal como têm os anjos do céu. A dúvida afirmativa também faz questionamento, mas porque quer entender a verdade, como determinada coisa é verdadeira e quais são as razões por trás de cada coisa que lhe foi ensinada. Essa espécie de dúvida é bemvinda, pois é o meio de fazer com que a fé se torna, pela primeira vez, da pessoa. Porque, se a verdade da fé é recebida apenas por causa da autoridade de quem a ensinou, não é recebida em liberdade e não pertence realmente à pessoa. Mas se essa pessoa examina a verdade, buscando respostas para as suas perguntas, sempre com o propósito de compreender o que exatamente é o certo e o errado, ou seja, com a vontade de crer nos ensinos da Palavra para aceitá-los e não para negá-los, ela receberá as respostas; por essa espécie de questionamento ela irá receber a fé espiritual, o entendimento racional de seu relacionamento com Deus.
Ora, homem algum pode pretender ter resposta para todas as perguntas. Isto é simplesmente porque ele foi criado para que seu entendimento se desenvolva e se amplie por toda a eternidade. E um crescimento progressivo envolve uma série contínua de outras questões que querem respostas. Mas um ponto que deve estar assentado sem sombra de dúvida, desde o começo, é que a Palavra de Deus é a fonte de todo conhecimento espiritual. A pessoa tem de chegar à compreensão de que o Senhor é a Divina Sabedoria acima de seu entendimento finito, e por isso ela se humilha diante da Palavra de Deus como a fonte de sua sabedoria pela eternidade. Quando tem essa humilhação e esse reconhecimento, a pessoa está confessando sua fé. Essa confissão não se baseia em conhecimentos encerrados na memória, mas na convicção do Senhor Jesus Cristo como a Verdade revelada em Sua Palavra.
O reconhecimento de Deus envolve também o reconhecimento da limitação do homem. Envolve o humildade reconhecimento de nossa própria natureza como sendo em si mesma má e pecaminosa, a necessidade da misericórdia de Deus. Porque o reconhecimento de uma verdade traz sempre o reconhecimento da falsidade e do mal que lhe são opostas. Quando estivermos prontos para confessar que, de nós mesmos, não somos nada, então estaremos prontos para confessar que o Senhor é o Caminho, a Verdade e a Vida.
A vida da regeneração, a etapa em que nos juntamos à Igreja do Senhor na terra, é um período longo, difícil e muitas vezes tedioso. Há inúmeros obstáculos e sombras no caminho à frente de cada pessoa que confessa sua fé no Senhor, porque é o caminho da vida, da remoção dos males e falsidades, o que não se opera a não ser por meio de combates de tentação. E também é porque a nossa vida diária é a única base em que podemos assentar a vida do céu, e a vida do mundo reage e repele essa vida celeste.
Quando assume a vida cristã por seu próprio juízo e sua própria vontade, na idade adulta, a pessoa está se confirmando na vida em que foi educada pelos pais, mas, acima disso, está fazendo com o Senhor, por si mesma, uma solene aliança, um pacto em que, agora por ela mesma, de sua parte, assume os compromissos e responsabilidades da vida cristã, antes cumpridos por seus pais em lugar dela; de Sua parte, o Senhor Se compromete a guiá-la com Seu Divino Amor e Sabedoria até o destino feliz que Ele preparou há muito para todas e cada uma das criaturas, mas só acessível àqueles que fielmente se confirmam em Sua Palavra pela fé e pelo viver. Agora a pessoa deixa atrás de si a autoridade natural dos pais e assume a autoridade Divina; o Senhor é o Pai a Quem ela obedecerá e servirá com devota humildade; e a Igreja é a mãe, o seio espiritual em que ela se nutrirá do alimento que dura para a vida eterna.
Agora serão necessárias força e coragem. Será preciso certeza do caminho, para que o cristão o percorra com confiança. E ao mesmo tempo que esse caminho se abre à sua frente, também muitos desafios e dúvidas se manifestam em toda parte. Há inimigos espirituais que procurarão destruir a nova vida espiritual, como os inimigos em Canaã que Israel teve de vencer para conquistar a terra. Esses inimigos são os amores ruíns e as cobiças enraizados próprios da natureza humana, que estão exercendo domínio em áreas de nossa vontade como inimigos poderosos dentro de muralhas bem fortificadas. E se nós examinarmos nossos corações com honestidade, veremos que não temos poder algum contra tais inimigos. Cada vez mais, veremos que precisamos, e muito, do poder do Senhor. Como Josué, que estava para entrar na terra e a possuir, precisamos ser fortes e ter bom ânimo, e podemos ter essa força e essa coragem quando sabemos que o Senhor vai conosco, estará conosco e não nos desamparará nem nos deixará.
O batismo é uma confissão de que reconhecemos o Senhor como nosso único e verdadeiro Auxílio, e que queremos que Ele mesmo nos leve no Seu caminho e nos conduza, pelas lutas, até à conquista de uma vida realmente feliz e plena de Sua bem-aventurança e paz. Mas o ato em si do batismo não dá fé nem salvação: é apenas um testemunho de que a pessoa faz esse reconhecimento do Senhor em sua vida; é a esperança de que, por essa santa aliança, a pessoa encontrará o sentido de sua existência. O Senhor, nesse ato, está ao nosso lado, inspirando-nos coragem e dizendo-nos:  Esforça-te e anima-te... O Senhor... é Aquele que vai diante de ti;  Ele será contigo, não te deixará, nem te desamparará. Não temas, nem te espantes" - Deut. 31:7,8. Amém.

Rev.Cristóvão R. Nobre, inspirado num sermão do Rev. Robert S.Jungé.