A RESSURREIÇÃO DO CORPO DO SENHOR


Sermão pelo Rev. Albert Bjork


“E destas coisas sois vós testemunhas. E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai, porém, vós na cidade de Jerusalém,
até que do alto sejais revestidos de poder”.

(Lucas 24, 48-49)

Os Evangelhos nos falam de muitas coisas referentes aos acontecimentos subseqüentes à ressurreição do Senhor, mas as suas narrações da ressurreição mesma diferem de um para o outro nas particularidades.
Estas diferenças têm perturbado algumas mentes, porque parecem lançar dúvidas sobre a correção com que foi narrado um acontecimento histórico, tornando-se, por isso, necessário que se diga algumas palavras a respeito.
O ensinamento geral da Revelação para a Nova Igreja é que os acontecimentos históricos referidos na Palavra aconteceram efetivamente como aí estão descritos; mas esse ensinamento geral é modificado por outros, os quais nos mostram que a Divina Providência superintendente não somente os próprios fatos referidos como também a sua descrição feita pelos vários escritores, de modo que o resultado, sem interferir com a liberdade do instrumento humano, seja uma perfeita representação das coisas espirituais que são reveladas.
E isto porque o ensinamento espiritual ou a revelação da Divina Verdade é o objetivo principal da Palavra Escrita, sendo as narrações de negócios humanos usadas somente como instrumento para esse fim. Além disso, as narrações dos Evangelhos sobre a ressurreição do Senhor, a Sua ascensão e os acontecimentos ocorridos entre estes dois fatos, não pertencem ao domínio da história, tomada no sentido ordinário.
Se o Senhor tivesse ressuscitado no corpo que os homens tinham conhecido na terra, o corpo de que Ele se tinha revestido ao nascer de uma mãe humana, então a narração poderia ser considerada histórica no sentido comum, que trata de acontecimentos físicos. Mas o Senhor ressuscitou em um corpo Divino, em que nada havia da natureza física, visto ter sido rejeitado completamente tudo que provinha de Maria. Os Seus discípulos e adeptos tinham sido informados da existência desse corpo glorificado, de acordo com a sua capacidade de perceber, entender e sentir a Divina Verdade; ou, em outras palavras, na medida em que seus sentidos espirituais estavam abertos para o céu.
Esta diferença na capacidade de receber as coisas do espírito é a causa das diferenças nas narrações, onde o testemunho de um parece estar em conflito com os dos outros. Mas estes diferentes testemunhos eram todos necessários para que a verdade que o Senhor revelava permanecesse no mundo e a Igreja fosse estabelecida. E isso de tal forma que, embora compreendida imperfeitamente através dos séculos até a consumação das idades e à nova vinda do Senhor como Divina Verdade, se pudesse ver a luz desta Verdade que aquela contém, representativamente, as mesmas verdades reveladas de uma outra forma, na Segunda Vinda do Senhor. A forma externa da Nova Revelação da Divina Verdade é acomodada à faculdade dos homens entenderem racionalmente coisas espirituais aparte das naturais. E essa faculdade se abre e se aperfeiçoa progressivamente à medida que vamos aprendendo a distinguir claramente as coisas espirituais das naturais e a pensar sobre elas segundo seus planos respectivos, sem misturar com o outro, e vendo que a única relação que existe entre eles é a da correspondência.
Quando compreendemos isso claramente, adquirimos a capacidade de ver a Doutrina da verdade genuína — revelada pelo Senhor em Sua Segunda Vinda — que está representativamente contida nas narrações dos Evangelhos sobre a vida do Senhor, a Sua morte, a Sua ressurreição e a Sua ascensão.
Sem fé na ressurreição do Senhor e na Sua ascensão ao Céu, a Igreja Cristã nunca poderia ter sido estabelecida, porque sem essa fé o Senhor seria considerado um homem como os outros quanto ao Seu físico. E então, por mais alto que os homens O colocassem, pondo-O acima de todos os outros quanto à moral, à ética e à religião, a Sua Divindade nunca se teria tornado um artigo de fé; e sem uma fé viva na Divindade do Senhor a Igreja Cristã não poderia ser fundada.
Os sumo sacerdotes e os fariseus da Igreja Judaica tinham uma certa percepção disso, o que os fez pedir permissão a Pilatos para mandar guardar o sepulcro, selando a sua entrada “para que”, diziam eles, “os seus discípulos não viessem roubá-lo, e dissessem ao povo que Ele tinha ressuscitados dos mortos. Por outro lado, é um fato singular e significativo — o qual todos os Evangelhos dão testemunho — que a possibilidade do Senhor ressuscitar da morte nunca entrou na mente dos discípulos, a despeito d’Ele lhes ter falado sobre isso em palavras inconfundíveis.
O Senhor tinha convivido com eles durante três anos consecutivos, instruindo-os pela palavra e exemplo de Sua vida cotidiana; eles tinham visto as Suas obras maravilhosas, e o Seu poder sobre os espíritos que mantinham homens possessos; tinham visto três diferentes manifestações de Seu poder sobre a morte, e mesmo assim não podiam conceber que Ele ressuscitasse da morte, e não acreditaram nisso quando lhes foi dito pelos que O viram depois da ressurreição.
Lucas nos diz que a narração das mulheres que tinham vindo do sepulcro com a mensagem do Senhor para que fossem se encontrar com Ele na Galiléia, não pôde vencer a sua incredulidade, pois “as suas palavras lhes pareciam como desvario, e não creram”. O Evangelho de Marcos nos diz que o testemunho dos dois discípulos que O tinham visto e com Ele conversado no caminho de Emaús, e a mensagem trazida por Maria Madalena, não havia conseguido convencê-los. Maria Madalena, diz esse Evangelho,
“Anunciou-O àqueles que tinham estado com Ele, os quais estavam tristes e chorando. E, ouvindo eles que vivia, e que tinha sido visto por ela, não o creram. E depois manifestou-se em outra forma a dois deles, que iam de caminho para o campo. E indo estes, anunciaram-no aos outros, mas nem ainda estes creram”. (Marcos 16, 10-13)
Temos uma impressão completamente diferente com a descrição que Lucas faz do mesmo incidente, pois Ele diz que quando os dois discípulos voltaram de Emaús, os onze e os que estavam com eles, lhes disseram: “Ressuscitou verdadeiramente o Senhor, e já apareceu a Simão”. E então, “eles lhes contaram o que lhes acontecera no caminho, e como deles foi conhecido no partir do pão” (Lucas 14, 34-35). De acordo com esta narração, os onze tinham sabido de Simão Pedro que ele tinha visto o Senhor, e evidentemente acreditaram nisso, pois do contrário não teriam dito aos recém-chegados: “Ressuscitou verdadeiramente o Senhor, e já apareceu a Simão”. De fato, eles acreditaram na autoridade humana de Simão Pedro a quem conheciam e em quem confiavam, mas era apenas uma crença externa, como toda crença em autoridade humana; internamente, porém, estavam perturbados e de seus corações se levantavam dúvidas, como se vê pelo que aconteceu quando o Senhor mesmo desvendou o estado interno deles.
Deve-se notar que na descrição deste incidente, o nome “Pedro” não é mencionado, sendo este discípulo chamado somente de Simão. Simão é a forma grega do hebraico Shimeon, que significa “obediência”. A sua significação espiritual torna-se assim mais clara. A verdadeira obediência aos ensinamentos do Senhor permite perceber que Ele está vivo, embora aparentemente esteja morto e sepultado pelos homens. Contudo, os restos da antiga vontade e o entendimento natural ainda causam perturbações e produzem raciocínios de dúvida.
Semelhantemente, a autoridade de um discípulo, anunciando que tinha visto o Senhor vivo, pode ser tal que suas palavras sejam aceitas externamente pelos outros, embora ainda estejam em dúvida nos recessos íntimos de sua mente. Este estado é descrito nas seguintes palavras do Senhor:
“E falando eles destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou no meio deles, e disse-lhes: ‘Paz seja convosco’. E eles, espantados e atemorizados pensavam que viam algum espírito. E Ele lhes disse: ‘Por que estais perturbados, e por que sobem tais pensamentos aos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo: apalpai-me e vede; pois um espírito não tem carne nem osso, como vedes que eu tenho’. E, dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés”. (Lucas 14, 36-40)
O Evangelho de João realmente não diz em tantas palavras que os discípulos não acreditaram em Maria Madalena quando ela veio lhes dizer que tinha estado com o Senhor, mas diz que eles ficaram contentes quando “chegou Jesus, e pôs-se no meio e disse-lhes: ‘Paz seja convosco”. A dúvida em que estavam se infere, porém, do fato do Senhor ressuscitado lhes ter mostrado as mãos e o lado. E o mais persistente exemplo dessa dúvida, comum a todos eles, é mencionado a seguir nesse Evangelho. Tomé, que não estava presente quando o Senhor Se mostrou aos outros, não acreditou no seu testemunho unânime, dizendo: “Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos e não meter no meu dedo no lugar dos cravos, e não meter a minha mão no seu lado, em maneira nenhuma o crerei” (João 20,25).
E Mateus, embora não diga que os discípulos não creram na narração das mulheres, e conte que eles obedeceram à mensagem do Senhor, “e partiram para a Galiléia, para o monte, que Jesus lhes tinha destinado”, acrescenta que “quando o viram, o adoraram, mas alguns duvidaram (Mateus 28, 16-17).
Essa dúvida ou tendência para descrer da verdade da ressurreição do Senhor não desapareceu na mente dos homens que tinham seguido o Senhor na terra e que tinham sido instruídos por Ele, senão quando O viram ser elevado para o Céu. Só isso é que lhes deu a segurança necessária a uma fé em sua Divindade, que nada poderia abalar, e só depois que essa fé foi estabelecida puderam eles receber o Espírito Santo e, de acordo com o Seu mandamento, ir a todo o mundo pregar o Evangelho a toda criatura.
A eles foi dado ver a ascensão do Senhor ao Céu de uma forma que tomou a aparência de uma realidade física, porque somente assim eles, e em geral a humanidade daquele tempo, poderiam alcançar uma fé absolutamente certa na Divindade do Senhor, em Seu poder sobre a vida e a morte, e a certeza da vida eterna para todos que O seguissem, fé sobre a qual, unicamente, a Igreja Cristã poderia se estabelecer entre os homens.
A revelação da Divina Verdade dada aos homens pelo Senhor em Sua Segunda Vinda — revelação que, quanto à sua forma externa, está acomodada à faculdade que os homens têm de entender as coisas espirituais distintamente das naturais, e de uma forma racional —, essa revelação nos diz que há dois essenciais sem os quais a Igreja Cristã não pode existir, a saber, a fé na Divindade do Senhor e a fé na Divindade da Palavra. Os ensinamentos da nova Revelação também nos mostram que estes dois essenciais são um em essência, porque o Senhor é Infinito Amor e Infinita Sabedoria, e n’Ele estes dois, não são propriamente dois, mas um, e eles descem aos homens na Divina Verdade que lhes é revelada.
No no 371 do Céu e Inferno lemos o seguinte: “Do Divino Amor procede o Divino Bem, e o Divino Bem é recebido pelos anjos e os homens nas Divinas Verdades, pois o único receptáculo do bem é a verdade”. E na lição dos Arcanos Celestes que foi lida hoje, a mesma verdade é estabelecida nas seguintes palavras: “Se disserdes Divina Verdade ou o Senhor quanto à Divina Verdade, dá no mesmo, pois o Senhor é a Verdade mesma, como é a Palavra mesma”. No mesmo número se diz que
“a ressurreição do Senhor no terceiro dia significa que a Divina Verdade ou a Palavra quanto ao seu sentido interno, como era compreendida pela Antiga Igreja, ressuscitará na consumação dos séculos que é também o terceiro diz; outrossim se diz que então o Filho do Homem aparecerá, isto é, a Divina Verdade”.
Os discípulos do Senhor em Sua Segunda Vinda são abundantemente instruídos por ensinamentos como estes e por muitos outros, para que saibam que a Divina Verdade revelada pelo Senhor por intermédio de Seu servo Emanuel Swedenborg, é o Senhor mesmo em Seu Divino Humano, que vem aos homens sobre a terra em Seu corpo ressuscitado, como Ele realmente prometeu a Seus discípulos: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós”.
Entretanto, embora muitos O tenham seguido e aprendido com Ele, e O tenham amado como Ele aparece na Revelação de Sua Segunda Vinda, muitos outros ainda estão em estado de dúvida e inclinados a não acreditar que esta Revelação é realmente d’Ele, que o Seu Divino Amor é a vida dela, aparecendo e descendo aos homens sobre a terra em suas verdades — esses duvidam que ela possa ser o Senhor revelando-Se novamente como a Divina Verdade.
Que os discípulos do Senhor em Sua Segunda Vinda estariam por algum tempo neste estado de dúvida e, portanto, em tentação, foi predito pelo Senhor, e está representativamente descrito na narração que faz o Evangelho dos acontecimentos que tiveram lugar no espaço de tempo entre a Sua ressurreição e a Sua ascensão.
Há um período de quarenta dias entre estes dois acontecimentos. Os próprios Evangelhos nada dizem a respeito do que ocorreu entre a ressurreição e a ascensão, mas nos “Atos dos Apóstolos”, Lucas diz que Jesus “mostrou-se vivo depois de Sua paixão, por muitas provas, aparecendo a eles pelo espaço de quarenta dias”. O número quarenta na Palavra sempre significa um estado completo de tentação.
Quando os discípulos viram o Senhor elevando-Se ao Céu pela maneira que os “Atos” descrevem, o seu estado de dúvida e, portanto, de tentação, chegou ao fim. Conheceram então com absoluta certeza que o Senhor era Divino. Conheceram que o corpo que viam ascender ao Céu era um corpo Divino real, não o espírito de um homem cujo corpo estivesse sepultado, e todas as suas dúvidas e temores desapareceram. Compreenderam que tinham uma missão a desempenhar, a missão que Ele lhes tinha dado, e procederam imediatamente à escolha de um discípulo para o lugar que ficou vago com a traição de Judas. Assim eles restabeleceram o seu número de doze, como era antes, o mesmo número das tribos de Israel e que significa todas as coisas santas do amor e da fé.
Então o poder do alto lhes foi dado. Estes homens da Galiléia que, aos olhos do mundo, eram pobres, incultos e ignorantes, deviam destemidamente sair pelo mundo, pregando o Evangelho e, num tempo assombrosamente curto, fazer com que as verdades do Cristianismo fossem conhecidas por todo o mundo — batizando todos os povos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Uma experiência espiritual correspondente terão os discípulos da Segunda Vinda do Senhor quando a Divindade da Nova Revelação (em que Ele veio) for compreendida de uma maneira racional e espiritual. Quando virem que é uma verdade a ressurreição de Seu corpo, no qual Ele Mesmo está novamente vivo com os homens, instruindo-os em todas as coisas santas de Seu amor e de Sua fé — que é o Seu Divino Humano com os homens através do qual Ele está presente conosco sobre a terra como está presente com os anjos do Céu —, então todo pensamento dessa Revelação como uma obra humana desaparecerá. A fé dos homens nela como Divina Verdade não mais estará em tentação, porque a Sua Divindade será vista claramente pelos olhos do mundo como o corpo do Senhor parecia ser visto pelos olhos naturais dos discípulos. É verdadeiramente um corpo Divino descendo pelo Céu do Senhor, em que Ele está como a sua verdadeira alma.
Então todos os discípulos do Divino Humano do Senhor serão remidos em Jerusalém, receberão o Espírito Santo da Verdade e se tornarão realmente apóstolos, saindo pelo mundo, batizando todos os povos em nome do Infinito Amor, da Infinita Sabedoria e do Infinito Poder do Senhor.
Quando isso acontecerá, ninguém poderá dizer, senão o Senhor, mas a história representativa do Evangelho nos permite formar um certo juízo das experiências espirituais pelas quais terão de passar os homens da Igreja para chegar ao dia de Pentecostes e à recepção do Espírito Divino da Verdade.
Amém.

•   1ª Lição:     Lucas 23,50 e 24,53
•   2ª Lição:     A. C. 2813