A PRESENÇA DO SENHOR


Sermão pelo Bispo George de Charms


“Faz subir os vapores das extremidades da terra; faz os relâmpagos para a chuva; produz os ventos dos seus tesouros.”

(Salmo 135,7)

O Senhor está presente, imediatamente, em todo homem que nasce no mundo. É o seu Criador e Formador desde a concepção. Está presente em toda criança desde o seu primeiro movimento após o nascimento, protegendo-a e modelando o seu corpo e o seu espírito; formando o seu caráter, dirigindo os seus pensamentos, instruindo-a, inspirando-a, guiando-a. vela pelo homem com infinita ternura em cada mudança de estado de sua vida sobre a terra. Esta constante solicitude Divina, como declara o profeta Isaías, é maior do que a da mãe. “Sião diz: Já me desamparou o Senhor, e o Senhor se esqueceu de mim. Porventura pode uma mulher esquecer-se tanto de seu filho que cria, que se não compadeça dele, do filho do seu ventre? Ora, ainda que esta se esqueça dele, contudo eu não me esquecerei de ti”. (Isaías 49, 14-15)
Isto foi dito especialmente de Sião, ou da nação judaica, como povo escolhido do Senhor. Mas os judeus só eram chamados o povo escolhido porque representavam a Igreja do Senhor, ou aqueles que, no mundo, O recebem e adoram. E nesse sentido, não há ser humano a que isto não se aplique; pois toda criança que nasce no mundo é criada para a Igreja do Senhor sobre a terra e para o céu depois da morte. E para que possa atingir este destino, o Senhor derrama sobre a criança todo o Seu Amor e, em seu benefício, dispensa-lhe cuidados, bondade constante e misericórdia sem limites. É como se a criança fosse o único ser humano existente, como se todo mundo tivesse sido criado para ela somente, tão perfeitamente ordenadas estão todas as forças do universo em harmoniosa dependência de seu bem-estar eterno. O fato de que este mesmo Amor Divino se ocupa igualmente de milhões incontáveis de almas humanas, não diminui a sua minuciosa e constante operação em cada indivíduo; pois Ele é infinito. Está presente em toda parte, em toda parte se dá em Sua plenitude, embora nunca se divida.
Esta imediata presença do Senhor é a única força vital da vida espiritual do homem. Todo o seu destino futuro depende de sua própria reação a este influxo do Divino Amor. Depende dele, ceder à direção do Senhor ou resistir, por sua própria vontade, a essa direção; depende dele reconhecer de coração a misericórdia do Senhor ou negá-la; depende dele procurar conscienciosamente o auxílio do Senhor na direção de sua vida, ou voltar definitivamente as costas ao Divino, no esforço de conduzir o seu próprio destino. Todo o caso de sua salvação repousa sobre sua recepção ou rejeição ao Senhor.
Para esta escolha é conservado em perpétua liberdade. Nenhuma força externa pode constrangê-lo nesse assunto. A hereditariedade, o ambiente, a instrução, a educação, as circunstâncias da vida sobre a terra, as ligações com os outros homens — tudo se combina para dar cor e qualidade à sua mente. Mas tudo isso está abaixo e fora do homem mesmo. Todas essas coisas não passam de influências externas provenientes das vidas dos outros; enquanto no interior, mantendo um perfeito equilíbrio com elas, está sempre o Senhor! A questão que todo homem precisa resolver por si mesmo, é esta: “O que farei com todas estas coisas que dos outros, vêm a mim? Aceitá-las-ei cegamente e usá-las-ei em meu próprio serviço ou procurarei compreender suas significação e indagar do Senhor o que Ele quer que eu faça?” Um ou outro destes caminhos, o homem é obrigado a seguir. A escolha determinará a sua vida; formará o seu eu; fará o seu caráter e a sua individualidade. Dessa decisão depende o seu destino eterno. Entretanto, ninguém pode tomar essa decisão pelo homem, nem mesmo o Senhor. Tal é a responsabilidade religiosa de cada homem.
A vida espiritual nos vem do Senhor pelo céu, exatamente no grau em que nós mesmos abrimos nossos corações para recebê-la. O Senhor reclama de nós um esforço individual, a volta individual para Ele, sem o que nada nos poderá dar da vida espiritual. As coisas realmente se passam como se nós recebêssemos os dons espirituais de outros; como se pais amorosos, professores sábios e os ensinamentos da Igreja, fizessem a nossa felicidade eterna. É como se a nossa salvação dependesse de nos serem dadas essas coisas. Não podemos seguir a vida da regeneração a não ser que aprendamos o caminho. Não é o papel e o dever dos pais, dos professores e da Igreja, nos dar esses conhecimentos? Se, portanto, esses agentes fracassarem, não estaremos desculpados na medida desse fracasso? Certamente! Pois não podemos ser responsabilizados diante do trono de Deus pelas deficiências espirituais provenientes da ignorância. Somos tentados a argumentar assim em nossa própria defesa, derramando bálsamo sobre nossa consciência e lançando, ao contrário, a culpa sobre os outros.
Como é difícil nos mantermos alertas e decididos em relação à nossa própria atitude para com o Senhor! Como é difícil é assumir sobre nós mesmos a plena responsabilidade pelo que pensamos e fazemos em completa liberdade! Se ao menos pudéssemos compreender que o Senhor guarda para Si só a formação de nosso caráter espiritual e que Ele só o pode construir na ordem do céu quando nós, por nós mesmos, O recebemos!
Cada mente humana é uma criação nova, diferente de todas as outras e maravilhosamente adaptada ao uso celeste que só o Senhor pode prever. É uma nova criação concebida pela Sabedoria do Senhor e produzida por Sua Providência. Nem a mínima parte desta obra Divina pode ser entregue a mãos humanas ou angélicas. E para que a exclusiva operação do Senhor não sofresse interferências, foi estabelecido como uma lei da ordem que coisa alguma espiritual tivesse possibilidade de passar de homem a homem. Seja o que for, no processo de transmissão, se torna natural; e se alguma coisa espiritual resultará ou não dessa coisa natural, depende da imediata presença do Senhor no homem que a recebe e da reação desse homem em relação ao Senhor. Se esta reação tem lugar na mente de um ouvinte, a verdade espiritual que, em conseqüência, ele vê, não provém de homem algum, mas é um verdadeiro dom de Deus feito a ele. É isto que as palavras de João Batista significam: “O homem nada pode receber, exceto o que lhe é dado do céu”.
Se o pensamento de que não podemos receber coisa alguma de valor espiritual proveniente de outra pessoa nos traz a sensação de apavorante isolamento — um sentimento de que estamos separados do próximo e isolados em nossos pensamentos e em nossos amores internos —, se parece erigir-se uma impenetrável barreira entre o nosso próprio interno e o ser interno real daqueles a quem amamos, entretanto, uma reflexão mais profunda nos mostrará que isso é verdade somente em relação à nossa vontade e poder pessoal. A despeito deste abismo aparente através do qual não podemos passar, o Senhor “forma os nossos corações unidos”. Ele nos liga com laços de mútuo entendimento e de verdadeira afeição. E o fato de não podermos, por nossa própria vontade, revelar os nossos pensamentos íntimos e as nossas afeições aos outros, nem penetrar o véu que esconde sua alma de nossos olhos é, sem dúvida, uma grande bênção que o Senhor nos concede. Por essa bênção Ele nos dá a liberdade — uma liberdade que ninguém pode violar.
Por esta lei protetora, o Senhor põe no íntimo de cada homem “uma porta aberta que ninguém pode fechar”. É esta a porta da verdadeira felicidade, pois a liberdade é o segredo de toda alegria humana. Somente, não devemos esquecer que, com a liberdade, vem uma pesada responsabilidade pessoal que é uma conseqüência da liberdade. Não podemos abrir mão de uma, sem abandonar a outra. Temos que decidir sobre o curso de nossa vida e, fazendo isso, podemos procurar auxílio — verdadeira e vitalmente eficaz — do Senhor somente. Quão maravilhoso, então, é sabermos que Ele está presente em nós com todo o Seu Amor, com toda a Sua Misericórdia e com todo o Seu Poder Infinito, desejoso de guiar os nossos passos pelo caminho da paz, esperando apenas que O chamemos com sinceridade de coração!
Esta ação individual do Senhor para construir o céu e a igreja na mente de cada homem é literalmente descrita no Salmo 135 sob a forma de uma operação do sol na natureza. O versículo 6º desse Salmo nos ensina que é o Senhor só que faz essa construção e criação espirituais, dizendo: “Tudo o que o Senhor quis fez, nos céus e na terra, nos mares e em todos os abismos”. É da alma humana que aqui se fala simbolicamente. Aí se diz que o Senhor “fez tudo o que quis”. Não se admite aí, interferência alguma em Sua Divina ação. Só a própria vontade do homem — o fechamento do seu coração — pode impedir o perfeito trabalho do Amor e da Misericórdia do Senhor. E como o Senhor executa esse trabalho a Seu modo e no tempo próprio, quando a porta é aberta pelo homem, o versículo 7º acrescenta, figuradamente: “Faz subir os vapores da extremidade da terra; faz os relâmpagos para a chuva; produz os ventos de Seus tesouros”.
São aqui poeticamente representados três passos distintos no desenvolvimento espiritual do caráter humano. Em cada um destes passos, o Senhor é o único guia, porque “vão é auxílio do homem”. O primeiro é uma preparação lenta, gradual e, em grande parte, inconsciente, da mente para a recepção da verdade espiritual. É comparado à subida dos vapores das extremidades da terra por meio do calor do sol. Aqui, porém, se faz referência à terra, aos vapores e ao sol do mundo espiritual.
Tudo o que recebemos pela instrução e pelo convívio com os outros, e pelo nosso próprio contato com o mundo da natureza, forma a “terra” de nossa vida espiritual. Constitui a subestrutura de todo o nosso pensamento. Mas somente quando somos levados a refletir sobre estas coisas pelo amor do Senhor presente em nós, individualmente, podem elas ser elevadas da terra ao céu. Pois todas elas são, a princípio, naturais em nós. O que quer que elas sejam nas mentes daqueles que no-las transmitem, só nos podem alcançar como coisas naturais. Mesmo com relação ao Senhor, quando Ele falou sobre a terra, não podia ser de outro modo. As Suas palavras provinham d’Ele como portadoras de uma mensagem Divina, mas só as suas vestes externas eram percebidas por aqueles que O ouviam. Quando Ele falou da regeneração, Nicodemos pensou que Ele falava somente de um segundo nascimento material. Quando ofereceu “água viva” à mulher da Samaria, ela entendeu que se tratava de água igual à que tinha vindo tirar do poço de Jacó.
É somente por uma sagrada e Divina preparação da mente de cada indivíduo que a significação de Suas palavras poderá ser revelada. E se isso será ou não realizados pelo Senhor, dependerá da recepção que cada homem, individualmente, lhe der. Por mais completamente instruídos que possam ser na Palavra de Deus, ou na mais elevada sabedoria da Igreja, os homens, a princípio, terão apenas uma visão natural dessas coisas. A sua significação celeste está escondida a seus olhos. E não lhes pode ser revelada a não ser pelo Senhor Mesmo. Precisamos ser instigados, primeiro, do interior, a refletir por mós mesmos sobre estes mistérios da vida.
Os pensamentos assim provocados são então elevados pelo calor do amor. Sentimos sua santidade, compreendemos que alguma verdade existe por trás deles, ainda que não a vejamos e progressivamente vamos desejando aprendê-la. É por meio deste desejo pessoal que o Senhor trabalha em nós, elevando nosso pensamento das coisas da terra, tal como os vapores são elevados ao ar, saindo da superfície da terra ou do campo.
Muitas vezes essa reflexão parece uma ocupação inútil. Não percebemos nenhum resultado imediato. Os dizeres da Escritura parecem obscuros e místicos. Muitas vezes, os nossos esforços conscientes para discernir a sua significação, aumentam a sensação de obscuridade. Mas lentamente, como que tateando, passando por desânimos e desapontamentos, o Senhor vai preparando as nossas mentes para a ilustração espiritual. Ele vai nos aprontando para receber uma nova visão da verdade. O solo está sendo preparado para uma plantação espiritual. Talvez seja somente depois de muitas semanas, ou meses, ou anos, que chegará o tempo em que estaremos prontos. Os vapores se transformarão em nuvens; a escuridão aumenta a nossa confusão; não descobrimos nenhuma solução satisfatória para os nossos problemas espirituais. E, então, de repente, vemos a luz! Ela vem como um relâmpago através da mente. Talvez seja alguma passagem particular da Revelação, que lemos muitas vezes antes com olhos que não viam, que agora toma uma nova significação, assume uma nova forma e produz uma radiação celeste. Pois dos vapores que Ele elevou da terra, o Senhor “fez relâmpagos para a chuva”. Os relâmpagos simbolizam aquelas percepções súbitas, vindas do Senhor, pelo interior, através do céu. O que vemos então é uma verdade espiritual inexprimível em linguagem humana. Essa verdade não pode ser recebida de outros. É uma forma de verdade maravilhosamente nova, criada em nós pelo Senhor, acomodada à nossa própria mente particular. Formada assim pela Mao do Senhor, a luz do céu brilha tanto nela que, o que antes era obscuro, torna-se subitamente luminoso e transparente. Vemos por meio dela o mundo que fica além. Isto constitui uma ilustração espiritualmente vida devido à presença do Senhor no interior da verdade. É esta a genuína verdade religiosa em cada homem. E quando esta verdade é percebida, ela muda toda a qualidade de nosso pensamento. Ilumina todas as coisas que lemos ou aprendemos. Uma nova luz parece irradiar-se das mais banais expressões, e o homem se maravilha porque nunca a vira antes. E um grande influxo de novas verdades vem do céu para ele. As nuvens transformam-se em chuva. Aquilo que subiu como névoa ou vapor volta à terra, trazendo-lhe uma nova vida que veste os campos de sua mente de verdura espiritual.
Não é, porém, sem luta, sem severas tentações que esta mudança se opera. É antes o resultado de uma tormenta, de um conflito de antigos amores e antigas idéias com os novos amores e as novas idéias. Os dois — o velho e o novo — não podem morar juntos. Um deve destruir o outro. O nosso fim íntimo não pode ser celestial e mundano ao mesmo tempo. “Não podemos servir a Deus e a mamon”. O nosso entendimento anterior da verdade religiosa — todas as formas de fé que recebemos inquestionavelmente de outros — devem agora ser refeitas dentro de nós para ajustar-se ao modelo daquela nova vida que nos foi desvendada. E nesse processo de remodelação, os erros, as incompreensões, longamente aceitos, precisam ser varridos para fora. Para realizar isso, o Senhor “traz o vento de Seus tesouros”.
Há ventos no mundo espiritual do mesmo modo que na terra. Os ventos naturais são produzidos pelo calor do sol que rarifica a atmosfera, fazendo o ar elevar-se, e assim forma uma espécie de vácuo para onde se precipita o ar circunvizinho. Os ventos espirituais também são produzidos por uma maior aproximação do Senhor que é o Sol do céu — por uma mais completa percepção de Sua presença e do calor do seu amor.
Quando, subitamente, a mente é iluminada com a luz do céu, quando as coisas são vistas com mais profunda penetração, de modo que todo o plano do pensamento é elevado para coisas mais altas, então resulta aí, por assim dizer, um vácuo. Alguma coisa nos foi tirada — alguma coisa que nós amamos. Todo o nosso ser é instigado a preencher esse vácuo para responder aça questões que se levantam, correndo assim para preencher esse vazio. Este é o vento do céu. Para o mal é um vento destruidor que varre os céus imaginários, deixando-os devastados e desolados. É uma verdade esclarecedora que descobre a realidade interna das coisas e torna impressionantemente clara a vaidade daquilo que antes nos satisfazia, porque supúnhamos que fosse verdadeiro. Por isso o mal foge dele com receio de que destrua a sua vida. E realmente, em todo homem que se regenera, é destruído aquilo que constituía a sua vida. Mas se o seu coração está aberto para o Senhor, então ele recebe uma nova vida — uma vida que descerra s nuvens e deixa o ar claro e vibrante pelas cintilações da verdade revelada do céu. É esta nova vida maravilhosamente preparada para nós e graciosamente dada pelo Senhor somente, através do nosso íntimo, que constitui a Igreja viva em cada coração humano.
Homem algum pode fazer esses vapores se levantarem das extremidades da terra. Homem algum pode produzir estes relâmpagos para chuva. Homem algum pode trazer estes ventos que dão vida espiritual aos outros. Estas bênçãos somente o Senhor pode dar, porque somente Ele conhece os corações dos homens. É realmente um milagre Divino o fato de poder ser levada a aprender, a entender e a amar as coisas do céu, uma mente que só vê coisas terrenas e só experimenta prazeres do mundo natural. A Providência não permite a revelação de coisas espirituais à nossa mente, antes que ela esteja preparada para recebê-las dignamente; pois de outra forma essa revelação depararia com a rejeição interna, com a negação e a morte espiritual conseqüente.
É por isso que a Palavra de Deus se envolve em símbolos; é por isso que não é permitido aos homens ver o outro mundo, além do véu; é por isso que o homem não tem, por si mesmo, a possibilidade de transmitir à mente de outro homem uma idéia verdadeiramente espiritual. O perigo é extremo e contra ele todas as precauções possíveis são tomadas pelo Senhor. “Nenhum homem pode ver a face de Deus e viver”, isto é, nenhum homem, sem a preparação Divina, pode ver a verdade espiritual e não negá-la de coração, expulsando-a de sua vida para sempre. Mas o Senhor faz os vapores se levantarem. Apronta o vaso para receber a Sua vida. No tempo próprio, abre os nossos olhos para ver, e ternamente nos guarda, nos fortalece e nos guia através da tempestade subseqüente, dizendo aos ventos que ameaçam tragar o nosso frágil barco no mar enraivecido: “Paz, estejais tranqüilos! Tende bom ânimo: sou Eu, não temais”.
Tal é o Seu amor e a Sua misericórdia, derramados em imensurável plenitude sobre todo homem, quando nos alimenta e eleva para sempre. Cada um de nós deve voltar-se para Ele, por sua própria vontade, por seu próprio esforço, para receber estas bênçãos de Suas mãos e reconhecê-lo como nosso Pai Celestial. De nenhum outro modo poderemos recebê-las. “Tu, ó Senhor, és nosso Pai. Nós somos a argila e Tu és o Oleiro; nós somos todos obra de Tuas mãos”.
Amém.

•   1ª Lição:     Isaías 44, 1-28
•   2ª Lição:     João 3, 22-36
•   3ª Lição:     D. L. W. 137-138