A IGREJA DE SARDO


Sermão pelo Rev. Norbert H. Rogers


“E ao anjo da Igreja que está em Sardo escreve: Isto diz o que tem os sete espíritos de Deus, e as sete estrelas: Eu sei as tuas obras, que tens nome de que vives, e estás morto. Sê vigilante, e confirma o resto que estava para morrer; porque não achei as tuas obras perfeitas diante de Deus. Lembra-te pois do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E, se não velares, virei sobre ti como o ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei. Mas também tens em Sardo alguma pessoas que não contaminaram seus vestidos, e comigo andarão em vestidos brancos; porquanto são dignos disso. O que vencer será vestido de vestidos brancos, e em maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida; e confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos Seus anjos. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas”.

(Apocalipse 3, 1-6)

O Apocalipse Revelado diz que há duas espécies de homens de que se compõe, hj, a Igreja Cristã na sua maior parte: os que praticam boas obras sem ter qualquer fé formam uma dessas espécies, e os que se limitam ao culto, não praticando boas obras, nem conhecendo a verdade, formam a outra (A. R. 107).
O estado em que se está só nas boas obras é representado pela Igreja de Pérgamo, que foi estudada em sermão anterior. As falsidades dos que estão nesse estado podem ser dissipadas, desde que recorram à Palavra para aprender as verdades que aí são reveladas, e pautem seus atos de acordo com essas verdades. Procedendo dessa forma, as suas obras se tornam boas tanto interna como externamente, isto é, nos atos.
O outro estado, em que se está no culto só e não nas boas obras nem nas verdades, é representado pela Igreja de Sardo, que é a quinta na série das sete Igrejas. Os que estão nesse estado podem ser melhorados; a sua falta de bens e de verdades pode ser suprida, como nos demais casos, se eles o desejarem. Basta que procurem as verdades da Palavra e vivam de acordo com elas. Fazendo isto alcançam uma fé salvífica e obtêm a caridade.
O estado sardoneano completa o pergamoneano, pois os deste estado, quando se regeneram, tornam-se homens celestes, enquanto que os de Sardo se tornam espirituais. A primeira preocupação do homem de Pérgamo é fazer o bem. Assim, quando é regenerado, recebe o influxo da Divina Verdade do Senhor diretamente em sua vida, o que constitui a característica distintiva dos anjos do reino celestial. O homem de Sardo não está preocupado com a prática do bem; e quando se regenera, a sua preocupação principal é a verdade. Por esta razão, quando está regenerado, recebe o influxo do Senhor indiretamente, em sua vontade e em sua vida, por intermédio do entendimento, o que é a característica dos anjos do reino espiritual. Daí resulta que a sua sabedoria e o seu prazer são menos elevados e menos intensos do que os dos anjos celestiais.
A sabedoria e o prazer dependem da conjunção do bem e da verdade. Nos anjos celestiais o bem e a verdade nunca se separam, visto como o influxo é recebido diretamente em sua vida. Mas nos anjos espirituais a verdade é, a princípio, separada do bem, unindo-se a ele depois, visto como o influxo é recebido no entendimento antes de entrar na vida. O fato de haver um período em que a verdade e o bem não estão conjuntos no anjo espiritual, é que faz com que seu estado seja menos elevado do que o do anjo celestial, em quem não existe essa separação em tempo algum.
Aqui é oportuno acrescentar que o estado espiritual não deve ser menosprezado por causa disso. Não deve ser considerado como imperfeito, pois isso implica em admitir que seja de algum modo, culposo, o que absolutamente não acontece. Para que o céu seja perfeito precisa ser constituído tanto de anjos celestiais como espirituais, desempenhando cada uma dessas categorias usos vitais, de acordo com as qualidades de seus temperamentos. Concluir que o estado espiritual é de algum modo culposo redunda em presumir que os usos desempenhados pelos anjos espirituais são prejudiciais à perfeição dos céus. Isso é evidentemente inadmissível.
Se examinarmos esse assunto à luz do ensinamento de que todas as coisas celestiais se referem primordialmente ao bem, e todas as coisas espirituais, à verdade, também, primordialmente, que a afirmação de que o estado espiritual é imperfeito importa em dizer que a verdade é imperfeita; e esse não é evidentemente o caso. Tanto a verdade como o bem — tanto o espiritual como o celestial — são perfeitos, embora a verdade seja, relativamente, externa, visto como é a forma que envolve o bem.
Sem estas considerações, a diferença intrínseca entre o estado de Pérgamo e o de Sardo — e a necessidade de tratar deles separadamente — não seria claramente percebida, uma vez que, na aparência externa, os dois são semelhantes. Embora o homem de Sardo não esteja nas boas obras como está o de Pérgamo, entretanto pratica os atos do culto e vive moralmente. Tem assim toda a aparência do estado de Pérgamo, isto é, parece que está também nas boas obras, mas realmente não o está. O homem de Pérgamo faz o bem porque instintivamente deseja fazê-lo. O homem de Sardo faz o bem por algum outro motivo que não é o amor do bem; motivo que a princípio é egoístico e mundano.
O culto do estado sardoneano é morto, porque aos que estão nesse estado faltam os bens da caridade e as verdades da fé. E, além disso, como eles não têm interesse pelos conhecimentos das coisas espirituais, nem pela inteligência e a sabedoria, a sua vida não é, verdadeiramente, moral. Com relação a isto os Escritos dizem o seguinte:
“Por culto morto é entendido o culto só, que consiste em freqüentar os templos, em ouvir pregações, em participar na Santa Ceia, em ler a Palavra e os livros de piedade, em falar em Deus, no céu e no inferno, na vida depois da morte, principalmente em piedade, rezar pela manhã e à noite, sem entretanto desejar conhecer as verdades da fé, nem querer fazer os bens da caridade, acreditando que pelo culto só se obtém a salvação, quando entretanto o culto sem os veros é unicamente um sinal da caridade e da fé, dentro do qual podem se esconder males e falsos de toda espécie, se não há nele a caridade e a fé; nestas consiste o culto real”. (A. R. 154)
E ainda mais:
“A vida moral é agir sinceramente, justamente, e retamente em relação aos outros, em todos os negócios e ocupações da vida; em uma palavra, é a vida que é manifesta aos homens, porque é a vida vivida com eles. Mas esta vida tem uma dupla origem: é ou do amor de si e do mundo, ou do amor de Deus e do amor para com o próximo. A vida moral do amor de si e do mundo, não é uma vida moral. (...) A vida espiritual é completamente diferente, porque tem uma origem diferente (...) e é verdadeiramente a vida moral”. (A. E. 182)
Vê-se claramente que os que estão no estado sardoneano, precisam executar a tarefa de ressuscitar o seu culto, e introduzir uma qualidade espiritual em sua vida moral. Para fazer isso é indispensável adquirir as verdades, e os conhecimentos do bem e da verdade. Estas coisas desempenharão um papel dominante em sua vida de regeneração. Por este motivo, é da máxima importância que se reconheça que o Senhor é a fonte de toda verdade e de todo conhecimento. De outra forma não se saberia onde achar as coisas de que se necessita. Por isso, dirigindo-se à Igreja de Sardo, o Senhor se apresenta como “Aquele que tem os sete Espíritos de Deus, e as sete estrelas”. A Divina Verdade é significada pelo “Espírito de Deus”; e os conhecimentos dobem e da verdade são representados pelas “estrelas”. O número “sete” significa todos.
À primeira vista pode parecer que a progressão, partindo do início do estado de Sardo, para alcançar (em sua plenitude) a regeneração do homem dessa espécie, seja relativamente fácil. Já possuindo ele as formas externas e os hábitos do culto e da vida moral, tudo o que parece faltar é apenas permitir que alguma coisa espiritual flua para dentro destas formas externas. Isto parece relativamente fácil, tendo em vista as grandes dificuldades que se encontram para quebrar maus hábitos e formar outros bons.
Mas a aparente facilidade da tarefa de preencher os externos já adquiridos com uma vivificante qualidade espiritual é, para o homem de Sardo, uma dificuldade maior do que aquela que os outros homens encontram quando procuram adquirir bons hábitos externos. A aquisição das verdades e dos conhecimentos do bem e da verdade e sua aplicação à vida exigem desse homem grande energia e um esforço persistente, para que seu culto se torne vivo e sua vida espiritualmente moral.
Até que tenha começado definitivamente a regenerar-se de acordo com as instruções da Palavra, o homem de Sardo é inteiramente natural, sendo governado pelo amor de si e do mundo. Persuadiu-se de que os bons hábitos externos — que adquiriu por motivos egoísticos e mundanos — são suficientes para sua salvação. Admite, na verdade, que não está completamente regenerado, acredita, entretanto, que é um homem bom, tendo a certeza, especialmente quando está só, de que progride satisfatoriamente no caminho do céu.
Enquanto permanece nessa ilusão não pode progredir porque, acreditando-se espiritualmente vivo, não faz esforços para erguer-se de seu estado de morte espiritual. Por conseguinte, embora pense que segue os ensinamentos da Palavra, na realidade não permite que eles exerçam sobre si qualquer impressão duradoura. Quando lê a Palavra, sente-se como que colocado aparte, achando que se aplica aos outros o que aí se ensina, e não a si mesmo. Quando encontra, por exemplo, o ensinamento claro de que o homem deve examinar-se à luz da Palavra, acha que seria muito útil se os outros observassem esse ensinamento, esquecendo-se de que ele mesmo podia tirar proveito disso. Por isso, o homem de Sardo é advertido contra essa tendência por estas palavras: “Eu sei as tuas obras, que tens nome, que vives, e estás morto”.
As formas externas não podem existir por muito tempo, a menos que sejam vivificadas por uma força interna. Se o homem não adquirir fé e caridade, que são formas internas ou espirituais, aprendendo as verdades e vivendo de acordo com elas, então os sinais externos da caridade e da fé, isto é, os atos de culto e de vida moral, gradualmente deixam de ter qualquer significação. Morrem e ficam como que desintegrados, como acontece com todos os bons hábitos, quando não são vivificados internamente.
O homem de Sardo precisa despertar do sono que o paralisa, e tornar-se consciente de seu verdadeiro estado antes que seja demasiado tarde. Precisa compreender que necessita viver de acordo com as verdades da Palavra para que os atos de seu culto e de sua vida sejam conservados e se transformem em hábitos cada vez mais fortes, inteiramente vivificados, isto é, para que estes atos se tornem realmente bons como parecem externamente e desse modo venham a ser os meios pelos quais se efetue a conjunção com o Senhor. Precisa ver que as verdades da Palavra se aplicam a si também; precisa sempre ter em mente os ensinamentos que aprendeu; precisa lembrar-se de que o culto e a vida são, a princípio, naturais, mas devem se tornar espirituais depois; precisa não se contentar com o seu estado presente; e tendo assim despertado — tendo reconhecido o perigo e compreendido as suas necessidades espirituais — o homem de Sardo precisa prosseguir no esforço para obedecer aos mandamentos Divinos, avançando passo a passo no caminho da ordem e da vida do céu.
Se não fizer isso, se continuar a não dar atenção à verdade e a não compreender a sua situação, se continuar descuidado em seu caminho, sem fazer qualquer tentativa para conhecer as coisas essenciais do verdadeiro culto e da vida moral, então chegará por fim, a não possuir mesmo os bens externos em que confiava tão firmemente para alcançar a felicidade do céu. Verificará, então, que desprezou as oportunidades que teve para aprender a verdade e aplicá-la à sua vida.
Desse modo, caindo em tentação, os seus conhecimentos da verdade tornam-se cada vez mais fracos, até que, por fim, não terá mais esses conhecimentos e nem o bem externo da vida. Nunca se tendo, propriamente, examinado, não compreenderá, senão demasiado tarde, o que está acontecendo consigo. Então lhe parecerá como se tivesse sido despojado por um ladrão e, finalmente, quando chegar ao estado da falsidade e do mal confirmados, não tendo mais nem mesmo vestígios da verdade e do bem, culpará o Senhor, acusando-o de ser injusto e de lhe ter roubado a felicidade que acreditava merecer. Para que o homem de Sardo não chegue a esse extremo, o Senhor lhe diz:
“Sê vigilante, e confirma o resto que estava para morrer; porque não achei as tuas obras perfeitas diante de Deus. Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E se não velares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei”.
Contudo, o homem de Sardo pode não chegar ao cúmulo de encarar o Senhor como um ladrão noturno. Pode, e deve encará-l’O como um amigo e companheiro. O Senhor assim será para o homem que se recusar a sustentar as falsidades e se negue a praticar os males porque são males contrários à Ordem Divina. Querendo fazer isso, e se esforçando efetivamente por fazê-lo, tanto quanto lhe é possível, o homem precisa estar vigilante, e procurar adquirir as verdades de que tem necessidade. Estas lhe inspirarão mais claramente o entendimento da Palavra; despertá-lo-ão mais plenamente; levá-lo-ão a resistir a todas as tentações, a tornar-se verdadeiramente espiritual.
Assim ele adquirirá a fé e a caridade, e se tornará digno da vida do céu; e os externos do seu culto e de sua vida, que são vestimentas que cobrem o seu interno, tornar-se-ão como que novos e brancos, como lemos no final do texto. Em vez de serem meros bens externos, feitos por hábito, tomarão a qualidade dos internos que eles vestem; tornar-se-ão puros e brancos, livres das manchas dos motivos egoísticos.
“Mas também tens em Sardo algumas pessoas que não contaminaram seus vestidos, e comigo andarão em vestidos brancos; porquanto são dignos disso. O que vencer será vestido de vestidos brancos, e em maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro de vida; e confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas”.
Amém.

•   1ª Lição:     Mateus 24, 36-51
•   2ª Lição:     A. E. 193, 1;3-5