A IGREJA DE ESMIRNA


Sermão pelo Rev. Norbert H. Rogers


“E ao anjo da Igreja que está em Esmirna, escreve: Isto diz o Primeiro e o Derradeiro, que foi morto e reviveu: Eu sei as tuas obras, e tribulação, e pobreza (porém, tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e o não são, mas são da sinagoga de Satanás. Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis tribulações de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O que vencer não receberá o dano da segunda morte”.

(Apocalipse 2,8-11)

A Igreja esmirneana representa o estado daqueles que, na Igreja, estão nos bens da vida, mas ainda permanecem nas falsidades quanto à doutrina. Embora ainda não compreendam a Palavra, sentem, entretanto, a necessidade de compreendê-la. Sabem muito pouco das verdades e dos bens que, de coração, anseiam por conhecer. Este é o segundo estado em que entra o homem em quem a Igreja está para ser estabelecida, seguindo-se imediatamente ao estado representado por Éfeso.
O estado efesiano é meramente natural, não constituindo, propriamente, um estado da Igreja. Os que estão nele apenas se aproximaram da entrada, mas ainda não atravessaram os umbrais, nem começaram a assimilar as coisas da Igreja. É como se estivessem se preparando para uma longa jornada que desejassem fazer, pois o estado efesiano é aquele em que se tem conhecimentos da verdade e do bem, mas ainda não se leva uma vida de acordo com esses conhecimentos. É o estado em que se conhecem os preceitos da doutrina sem, entretanto, fazer-se uso deles na vida cotidiana.
Os que estão neste estado têm afeição à verdade, mas é uma afeição natural, apenas, em cujo âmago há o amor de si ou o amor do mundo. Por essa afeição o homem fica apto, apenas, a adquirir conhecimentos do bem e da verdade que vai armazenando e misturando, em sua memória, com os conhecimentos do mal e da falsidade. Não tem ainda verdadeira compreensão dos conhecimentos que adquire, nem pode ainda distinguir claramente o que é falso do que é verdadeiro, e nem o que é bom do que é mau.
Embora, propriamente, não seja este um estado da Igreja é, entretanto, indispensável que passem por ele todos os que desejam entrar para a Igreja, e tornar-se realmente seus membros. É necessário, primeiro, aproximar-se da porta, para depois poder entrar; é preciso adquirir conhecimentos antes de começar a viver de acordo com eles. O estado efesiano é, portanto, um estado introdutório e, por esta razão, deve ser considerado como meramente temporário. Do outro modo, isto é, se não fizermos esforços para ir além dele, ficaremos do lado de fora da Igreja, e acabaremos por não alcançar a salvação.
Aquele que, pelos conhecimentos adquiridos na Palavra, chega a compreender o perigo de permanecer indefinidamente em estado efesiano e a necessidade de ir além, isto é, de aplicar à vida as coisas que se conhece, e se esforça por fazer isso na medida de suas possibilidades, entra gradualmente no estado esmirneano. Está então efetivamente atravessando os umbrais da Igreja, ou seja, começou a sua jornada. Conseqüentemente, entra em contato com a terrível e retardadora oposição do mal e da falsidade em todas as suas formas. Cercam-no perigos de toda espécie: dúvidas solapam as suas resoluções, temores ameaçam paralisá-lo e a morte parece ser o fim inevitável de sua difícil e trágica caminhada.
Entretanto, se o homem for sincero, não pode deixar de progredir no caminho escolhido, a despeito da pressão das tentações e do sentimento de achar-se inteiramente só e desamparado. Tem para estimulá-lo as palavras do Senhor: “Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus” (Lucas, 9,62). E também é sustentado por estas outras palavras dirigidas praticamente a todos os que estão no estado esmirneano: “Nada temas das coisas que hás de padecer (...) Sê fiel até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida (...) O que vencer não receberá dano da segunda morte”.
Os Escritos nos ensinam que Éfeso é o estado em que se possuem conhecimentos da verdade e do bem, mas não se está em uma vida de acordo com esses conhecimentos, e que se progride para o estado esmirneano quando eles vão sendo aplicados à vida. Entretanto, os Escritos nos dizem também que Esmirna é o estado em que se está no bem quanto à vida e na falsidade quanto à doutrina. Isso quer dizer que no estado esmirneano se tem poucos conhecimentos do bem e da verdade. Onde estão, pois, os conhecimentos que se possuía no estado efesiano?
Para resolver este problema, precisamos saber que os conhecimentos pertencentes ao estado efesiano são os do homem meramente natural, cuja mente não está espiritualmente iluminada; isto é, são os conhecimentos do bem e da verdade em sua aparência externa, armazenados na memória da mistura com conhecimentos do mal e da falsidade. A distinção e as relações entre os diversos conhecimentos ainda não são vistas claramente, nem existe ainda qualquer concepção verdadeira daquilo que a Palavra ensina.
Os conhecimentos do homem no estado efesiano não são, portanto, realmente conhecimentos do bem e da verdade. Parecem, apenas, que o são; e é devido a essa aparência que o estado efesiano é apresentado como sendo um estado em que há esses conhecimentos. As doutrinas formadas por eles são falsas, por serem compostas tanto de verdades como de falsidades. E essas doutrinas estão no homem quando ele entra no estado esmirneano. É por esta razão que se diz que este estado é de falsidade quanto à doutrina. O que está faltando é um genuíno conhecimento da verdade e do bem, ou antes, um entendimento da verdade e sua aplicação, o que permitirá eliminar as falsidades e os males, e formular doutrinas verdadeiras.
Daquele que está no estado esmirneano se diz que está no bem quanto à vida, porque se esforça por praticar o bem, vivendo de acordo com a doutrina que conhece. O seu bem, contudo, não é realmente bem, porque não está unido à verdade, mas é falsidade. Pode parecer, entretanto, que o estado esmirneano não seja melhor do que o precedente. E, com efeito, num certe sentido, é nitidamente pior, pois há nele uma qualidade profana, resultante da adjunção da falsidade ao bem. Se, porém, esta profanação — que a princípio é meramente potencial — não for confirmada, não se tornará, de fato, prejudicial. Só virá a ser nociva se o homem, no empenho de viver de acordo com a doutrina, não se esforçar, ao mesmo tempo, por alcançar o entendimento da verdade. Se aceita como verdadeiras as doutrinas que ele próprio formulou, ou mesmo as que são ensinadas pela Igreja, sem cuidar de saber se são verdadeiras ou falsas, e se depois as confirma pela letra da Palavra, como faria com qualquer outra idéia preconcebida, então permanecerá no estado de treva espiritual.
Quando o seu interesse está em jogo, as verdades são letra morta, e por essa razão acaba rejeitando-as em seu conjunto e, desse modo, chega a negar Deus. Pelo fato de estudar a Palavra, fica convencido de que conhece a verdade, e condenará qualquer interpretação que não concorde com o seu eu. E pelo fato de sua vida ser regulada de acordo com a sua doutrina pessoal, considerar-se-á como verdadeiro membro da Igreja, e condenará a todos aqueles cujas vidas não estiverem padronizadas pela sua. Na realidade, todos os seus pensamentos, palavras e atos são blasfemos e profanos, visto que não está nos bens e verdades da Igreja, mas nas falsidades e males do inferno. É sua “a blasfêmia dos que se dizem judeus, e o não são, mas são da sinagoga de satanás”.
Se, entretanto, o homem se esforça por entender as verdades da Palavra, enquanto procura viver de acordo com as doutrinas que conhece, então o caminho do progresso se abre para ele. Neste caso, o estado esmirneano constitui um avanço. Seu esforço para compreender e praticar a verdade habilita o Senhor a se aproximar dele e a inspirar-lhe a afeição espiritual da verdade. O que era morto vivifica-se então. A luz espiritual começa a iluminar a sua mente. As verdades da Palavra começam a se tornar compreensíveis. Antes de ser dotado com esta afeição da verdade tinha, talvez, procurado compreender as verdades da Palavra por um sentimento de dever, ou mesmo levado por uma curiosidade frívola. Agora, deseja compreender a verdade pelo prazer que isso lhe dá. E quando aprende a verdade na Palavra, alegra-se por causa da própria verdade.
Pela verdade que aprende nesse estado, o homem vem a saber quão falsas eram as doutrinas que anteriormente tinha por verdadeiras, e segundo as quais tinha vivido. Vê quão pequeno é o seu entendimento da verdade. Isto o perturba, “porque aquele que deseja compreender a Palavra, mas que ainda não a compreende, sente ansiedade de espírito quando não a compreende” (A. E. 117). O pouco que entende é suficiente para fazê-lo compreender a importantíssima verdade de que por si mesmo nada é, e que o Senhor é tudo em todas as coisas. Então reconhece sinceramente a Divindade do Senhor, e que são d’Ele somente todos os conhecimentos, todo o entendimento e toda a sabedoria. Com este reconhecimento de sua pobreza espiritual, torna-se possuidor de um tesouro acima de qualquer preço. Pois toda inteligência espiritual e toda sabedoria advém ao homem por este reconhecimento. “E ao anjo da Igreja que está em Esmirna, escreve: Isto diz o Primeiro e o Derradeiro, que foi morto e reviveu: Eu sei as tuas obras, e tribulação, e pobreza (porém, tu és rico) (...)”.
Ninguém pode ser regenerado sem sofrer tentações espirituais, que confirmam e fortificam o que foi adquirido, desde que se sucumba a elas, bem entendido. Aquele que está no estado esmirneano, devido à natureza desse estado, deve preparar-se para sofrer tentações. Com relação a isso encontramos no Apocalipse Explicado 121, o seguinte:
“Aqueles (espíritos) que estão conjuntos com o inferno, logo que percebem que alguém está em uma afeição espiritual com a verdade, começam a se inflamar de ódio, e lutam para destruí-lo; não podem suportar a sua presença. Muitos deles, se percebem, apenas por um momento, o prazer de uma afeição espiritual da verdade, que é o prazer essencial do céu, tornam-se insanos, e nada é mais agradável para eles do que destruir esse prazer (...) Seria o mesmo entre os homens sobre a terra, se estivessem na percepção em que os espíritos estão; mas como não estão nessa percepção, e portanto não conhecem os que estão em uma afeição espiritual, permanecem tranqüilos e comportam-se amigavelmente uma com os outros, de acordo com os prazeres do mundo. Mas esta disposição ostenta-se nas igrejas entre os que são zelosos em assuntos religiosos. É também evidente no que estão naquela afeição espiritual, de maneira que as falsidades se apoderam de seus pensamentos, esforçando-se por extinguir seus desejos e prazeres”.
Os maus espíritos excitam as falsidades e os males no homem, de modo que, por assim dizer, prendem sua atenção, conservando-o como que na prisão, afastado dos bens e das verdades que o deleitam. Fazem isso na intenção de desanimá-lo, fazendo-o sentir que novos esforços são inúteis. O Senhor está presente, entretanto, para retirar o homem da influência dos maus espíritos e, desse modo, dar-lhe a vitória na tentação, se ele se apegar fielmente às verdades e bens que possui e se entregar nas mãos do Senhor. Se o homem for humilde de coração e sincero em seu reconhecimento do Senhor, nada tem a temer, mesmo nas mais terríveis tentações; pois todo o inferno é impotente diante do Senhor.
Embora o Senhor proteja aqueles que o reconhecem, nenhum homem que se regenera escapa às tentações, e nenhuma tentação pode ser suspensa ou interrompida antes que tenha completado seu curso, e atingido o objetivo visado; porque nenhum mal e nenhuma falsidade pode ser removido sem a luta da tentação; nem pode qualquer bem ou verdade ser feito pelo homem, a não ser que resista à tentação até o fim. Para que o homem conheça isso e, portanto, se prepare para resistir à tentação até o fim, se diz em nosso texto: “Nada temas das coisas que hás de padecer; eis que o diabo lançara alguns de vós na prisão, para que sejais tentados, e tereis tribulação de dez dias”.
Como toda a tentação é do inferno, a morte está presente nelas. Se o homem sucumbe, tudo o que é espiritual nele, tudo o que é bom e verdadeiro, morre e se dissipa. E no fim ele será lançado no inferno que é a segunda morte. Mas se ele resiste à tentação, os males e as falsidades serão afastados e mortos e, na medida em que forem sendo removidos, o homem irá progredindo do seu estado anterior para outro em que alcançará inteligência e sabedoria, e será abençoado com a felicidade e a vida eterna.
Isto só é possível quando o homem adquire e retém a afeição espiritual da verdade, quando aperfeiçoa o seu entendimento da Palavra, e aperfeiçoa sua vida de acordo com os preceitos da Palavra. “Sê fiel até a morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas: O que vencer não receberá o dano da segunda morte”.
Amém.

•   1ª Lição:     Salmo 32
•   2ª Lição:     A. R. 97, 99-101